Perdo, Amor

Barbara Cartland





Coleo Barbara Cartland - Livro duplo n 2:
A espi de Monte Carlo & Perdo, amor

Publicado originalmente em:  1982
Ttulo Original:  Lies for love
Copyright para a lngua portuguesa:  1984
Abril S. A. Cultural


Digitalizao:  Palas Atenia
Reviso:  Ftima Toms


   Este Livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.
Sua comercializao  estritamente proibida.


CAPTULO I


        - Henry, pare de bater em Lucy e coma o seu mingau - disse Carmela.
        - No quero!
        Henry era um garoto feio e gordo, de quase sete anos, e na opinio de Carmela perfeitamente insuportvel.
        Para provar sua teimosia voltou a bater na irm, que desatou a chorar.
        - Pare com isso imediatamente, ouviu? - A moa brigou, sabendo que no ia adiantar.
        Henry pegou a tigela de mingau e de propsito virou-a em cima da toalha.
        O beb que estava no bero acordou com o barulho que Lucy fazia e comeou a chorar tambm.
        Carmela estava desanimada. Aqueles dois no tinham remdio.
        As crianas do vigrio deviam ser as mais mal-educadas e intratveis de toda a vida.
        Sabendo que no ia conseguir nada com Henry e que Lucy continuaria chorando, foi tirar o beb do bero, pegando-o no colo.
        Nesse momento, a porta se abriu e a esposa do vigrio Protestou:
        - Ser que no consegue manter essas crianas sossegadas? Voc sabe que meu marido est tentando escrever o sermo de amanh.
        - Desculpe, sra. Cooper.
        A mulher bateu a porta com fora. Henry esperou que a me fosse embora e gritou mais alto do que a irm:
        - Eu quero o meu ovo!
        - Vai comer o ovo depois de comer todo o mingau - respondeu Carmela, embora tivesse certeza de que estava lutando em uma batalha perdida.
        Mal ela se afastou da mesa o menino pegou um ovo, cortou a parte de cima da casca e comeou a comer feito um selvagem.
        Desanimada, Carmela pensou que aquele era um caso sem soluo. Desde que tinha vindo tomar conta dos meninos, sabia que, por mais diplomtica que fosse, 
no ia conseguir controlar Henry.
        Os pais dele j deviam saber o mesmo. Satisfaziam todas as suas vontades, desistindo de educ-lo; e o resultado era que se tornara um pequeno dspota, afastando 
as outras crianas e fazendo sempre o que queria.
        s vezes, quando ia para a cama  noite, cansada demais para dormir, Carmela achava que no suportaria os anos que teria pela frente, cuidando de crianas 
como Henry.
        Depois da morte de seu pai, precisava arranjar um emprego. Quando a sra. Cooper sugeriu que ficasse com seus filhos, pareceu-lhe a soluo para seus problemas. 
Pelo menos, estaria entre pessoas conhecidas.
        Encarou a situao com coragem, mesmo admitindo que tinha receio de ficar sozinha, de ter que enfrentar um mundo hostil e, principalmente, admitindo que 
temia no ser competente.
        O pai sempre a achara muito inteligente, mas isso era muito diferente de ter que ganhar dinheiro. Ele prprio tentara viver da venda de seus quadros, sem 
resultado.
        De vez em quando, ganhava o que para Carmela e a me parecia muito dinheiro, com um quadro vendido a alguma pessoa importante do lugar, mas suas pinturas 
eram na maioria "bonitas demais para serem vendidas".
        Era assim que a me as definia, provocando uma risota entre eles. Mas Carmela sabia bem o que ela queria dizer e por que os quadros do pai no tinham interesse 
para um comprador normal.
        Para a moa, a maneira como ele pintava a neblina sobre um rio ao amanhecer, ou o pr-do-sol atrs de colinas ao longe, era to maravilhosa que sentia-se 
transportada para um mundo mstico que s ela e o pai sabiam que existia. O mesmo mundo que conhecera em criana, quando ele lhe contava histrias de fadas e duendes, 
ninfas e sereias.
        Tal mundo de encantamento e beleza era muito real, mas na opinio de Carmela, ningum conseguia transferi-lo para uma tela. Assim, os quadros de Peregrine 
Lyndon ficavam na galeria de arte at serem devolvidos, porque ningum os comprava.
        Sua me fora a primeira a morrer, e havia muito pouco dinheiro entrando na pequena casa onde moravam, no fim da vila.
        A nica maneira que o pai tinha para amenizar o seu luto era pintar o que lhe dava prazer, desistindo de insistir com o gordo Aldermen, da cidade mais prxima, 
e com as pessoas mais importantes do lugar para lhes fazer os retratos.
        Como Peregrine era um homem atraente e conhecido como um perfeito cavalheiro, todos consideravam uma honra ter o retrato pintado por ele. Infelizmente, pouca 
gente em Hun-tingdon queria pagar por esse luxo.
        Depois da morte da me, Carmela costumava perguntar ao pai o que tinha feito durante o dia. Na maior parte das vezes, descobria que, insatisfeito, havia 
raspado a tela e recomeado a pintar a mesma coisa.
        - Penso sempre em sua me, quando vejo o sol despontando no horizonte.
        Em conseqncia disso, queria que o quadro ficasse perfeito e pintava a mesma cena inmeras vezes se no gostava do resultado.
        Carmela s conseguia ficar com as telas de que gostava quando as escondia no quarto, para no serem destrudas. O pai acabara morrendo de pneumonia no inverno 
anterior, por ficar ao relento para pintar as estrelas. Tudo que havia restado para a moa foram os quadros dele, que ningum queria, e umas poucas libras; resultado 
da venda dos objetos da casa. Para poder pagar o aluguel Carmela no teve outra soluo, seno trabalhar.
        Foi ento, quando estava desesperada, que a sra. Cooper lhe ofereceu emprego. Na ocasio, parecia que uma luz havia despontado nas trevas. S ao mudar para 
aquela casa horrvel e ver as gordas crianas do vigrio, percebeu seu erro.
        Mas no havia outra alternativa. Pelo menos, teria teto e comida de graa.
        Um pouco constrangida, a sra. Cooper disse que lhe pagaria dez libras por ano. Sem fazer a menor idia se era justo ou no, a moa aceitou, agradecida.
        Agora, pensava sempre que teria sido melhor morrer de fome do que tentar domesticar umas crianas que s lhe respondiam de maneira grosseira.
        Sempre pensara que algum com um mnimo de inteligncia seria capaz de se comunicar com qualquer outro ser humano, por mais difcil e primitivo que fosse.
        Muitas vezes tinha conversado com o pai sobre os missionrios, que viajavam por pases habitados por tribos selvagens e conseguiam ganhar a confiana delas, 
mesmo sem saberem falar a lngua indgena.
        - Os homens e as mulheres devem ser capazes de se comunicar com qualquer pessoa, da mesma maneira que os animais conseguem - dizia Peregrine Lyndon.
        Ele acreditava que devia haver algum no mundo que entendesse o que tentava expressar em uma tela, simplesmente porque pintava com amor.
        - Penso que o que acontece, papai,  que voc est adiantado no tempo. Neste momento, os artistas querem retratar exatamente o que vem. No passado houve 
homens como Botticelli e Michelangelo, que pintavam com a imaginao, tal como voc tenta fazer.
        - Sinto-me muito honrado pelos companheiros que me deu - disse o pai, sorrindo -, mas tem razo. Tento colocar o que penso e sinto, mais do que o que vejo. 
Se voc e eu entendemos esse trabalho, por que vamos nos preocupar com os outros?
        - Por que, no  mesmo? Mas imaginao no pagava o aougueiro e o padeiro, nem o dono da casa aceitaria que pagassem o aluguel com dinheiro "imaginrio".
        O beb parou de chorar e adormeceu. Carmela voltou a deit-lo no bero, com todo o cuidado. At ali, ele era um amor; mas ela sabia que, assim que crescesse, 
ficaria como os irmos.
        Ao voltar para a mesa, Lucy deu um berro:
        - Henry est comendo o meu ovo! Mande ele parar, srta. Lyndon! O ovo  meu!
        - No se importe, Lucy, voc pode comer o meu.
        - Eu quero o meu! Odeio o Henry, odeio! Ele est sempre pegando as minhas coisas!
        Carmela olhou para o garoto, sentindo que tambm o odiava.
        O mingau estava todo derramado na mesa em frente a ele, e o prato quebrado. A casca do primeiro ovo tinha cado fora do suporte e a gema do segundo pingava 
na toalha.
        A camisa dele tambm j estava suja do ovo. Na vspera, Carmela perdera um tempo enorme lavando e passando a roupa do menino.
        Sem dizer uma palavra, colocou o ovo na frente de Lucy, tirando a parte superior da casca e dando-lhe uma colher limpa.
        - Eu quero um ovo marrom! Marrom! - berrou a garota. - No gosto de ovo branco!
        - O gosto  igual - tentou consolar Carmela.
        - Voc  uma mentirosa! - Henry gritou.
        -  mesmo! Voc  uma mentirosa! - repetiu Lcy, esquecendo a raiva contra o irmo e feliz por encontrar um aliado contra um inimigo comum. - Ovo marrom 
tem gosto diferente! Eu quero um ovo marrom!
        Carmela sentou-se, suspirando.
        Encheu a xcara com o ch barato e desagradvel, que era o nico que serviam naquela casa, e cortou uma fatia de po.
        Lucy continuava aos berros e, de repente, jogou o ovo no bule, espalhando gema por todos os lados, at na mo de Carmela.
        Ia abrir a boca para repreender a menina, mas achou que aquela situao j tinha chegado ao limite mximo. Sentiu os olhos se encherem de lgrimas e, nesse 
momento, a porta se abriu.
        Endireitou-se, esperando ouvir a voz desagradvel da sra. Cooper mandando que fizesse as crianas se calarem ou o vigrio dando-lhes um grito, o que seria 
bem pior.
        Pressentindo que algum tinha entrado sem dizer nada, virou-se para ver quem era.
        Ficou sem fala.
        Parada na porta, tornando aquela sala suja mais desagradvel do que j era habitualmente, estava uma viso encantadora.
        A viso usava um chapu debruado de flores, um vestido de musseline, com cintura alta e fitas de cetim lils, e tinha um rosto lindo, grandes olhos azuis 
e uma boca vermelha que sorria para Carmela.
        - Al, Carmela!
        - Felicity!
        Levantou-se, limpando a mo suja, e correu para dar um beijo na amiga.
        Lady Felicity Gale era sua melhor amiga e tinham sido inseparveis, a no ser quando ela viajava.
        - Quando voltou? - perguntou Carmela. - Estava morrendo de vontade de ver voc.
        As palavras saam com dificuldade, e lady Felicity beijou-a carinhosamente, antes de responder:
        - Voltei s ontem  noite. Nem pude acreditar quando me disseram que voc tinha vindo para a casa do vigrio!
        - No tinha outro lugar para ir, depois que papai morreu.
        - No sabia que ele tinha morrido. Oh, Carmela, lamento muito.
        Carmela no disse nada, mas no conseguiu impedir que as lgrimas brotassem em seus olhos. Sempre que algum lhe falava do pai, toda a sua coragem ia por 
gua abaixo e era impossvel disfarar a falta que sentia dele.
        - Agora estou de volta - disse lady Felicity -, e quero que fique comigo.
        - Eu... eu estou trabalhando aqui.
        A outra olhou para a mesa e para as crianas.
        - Tenho algo melhor para voc do que ficar cuidando desses pequenos monstros! Lembro-me de Henry. Era ele quem ficava cuspindo e fazendo caretas na igreja, 
quando o pai no estava olhando.
        Carmela teve que rir.
        - Quem  voc? - perguntou Lucy, ressentida por no ser mais o centro das atenes.
        - Algum que vai levar este amor que  a srta. Lyndon para bem longe de vocs. Espero que seu pai encontre uma pessoa horrvel para ficar no lugar dela e 
que trate vocs como merecem! - Segurou a mo de Carmela. - Pegue as suas coisas, tenho uma carruagem esperando l fora.
        - Mas no posso sair assim.
        - Pode, sim. Enquanto faz a mala, vou explicar para a sra. Cooper que preciso de voc e quero que venha imediatamente.
        - Ela vai ficar furiosa e nunca me deixar voltar.
        - Mas nunca vai voltar. Eu explico tudo quando estivermos fora desta casa. - Olhando em volta, acrescentou: - Depressa, Carmela. No suporto ficar em um 
lugar destes mais do que um minuto. No entendo como conseguiu agentar.
        - Tem sido horrvel, mesmo. Mas, Felicity, fale com ela com cuidado.
        - Deixe comigo e faa o que eu lhe disse.
        - Eu... eu acho que no devo.
        - Preciso de voc, preciso desesperadamente; e no vai deixar de me ajudar.
        - Claro que no. Sabe que quero ir com voc, Felicity.
        - Ento, v arrumar as suas roupas. No, no  necessrio. No vai precisar delas. Tenho um monte de roupas para voc no castelo.
        Carmela olhou para ela, intrigada, Felicity continuou:
        - Faa o que eu lhe disse. Traga apenas as coisas de que mais gosta. Espero que sejam os quadros de seu pai.
        - Esto l fora, no celeiro. No havia lugar aqui dentro.
        - Mando meu empregado pegar e depois ir buscar sua mala. Agora, vou falar com a sra. Cooper.
        Saiu da sala, antes que Carmela pudesse dizer mais alguma coisa.
        - Voc vai embora com essa senhora? - perguntou Lucy.
        - Mame no vai deixar - disse Henry.
        Aquela impertinncia fez com que Carmela se decidisse de uma vez.
        - Sim, eu vou embora. - E saiu para o quarto. Como no havia lugar nas gavetas do quarto que dividia com Lucy, a maior parte das coisas ficara dentro da 
sala. No demorou muito para reunir o resto.
        Um empregado impecavelmente uniformizado apareceu na porta.
        - Bom dia, srta. Carmela.
        - Bom dia, Ben.
        - Sua Senhoria disse para eu vir pegar sua mala.
        - Est ali. Pode lev-la sozinho?
        - Claro que posso!
        Carmela saiu na frente, usando um casaco que tinha pertencido a sua me e um chapu barato, enfeitado com uma fita preta. Comparada com Felicity, devia parecer 
uma andorinha perto de uma ave-do-paraso.
        Estava nervosa com o que a sra. Cooper diria; teria todo o direito de ficar aborrecida com sua sada precipitada.
        Carmela sempre fazia o que Felicity queria e, embora a amiga fosse apenas uns poucos meses mais velha, s vezes dava a impresso de pertencer a uma outra 
gerao. Sempre comandava as atividades das duas e possua muita autoconfiana. Tinha viajado e conhecido pessoas importantes. Em conseqncia, amadurecera antes 
da idade.
        Assim que Carmela chegou ao vestbulo sombrio, percebeu que Felicity estava na sala, conversando com a sra. Cooper.
        Com o corao aos saltos, entrou, esperando ouvir uma torrente de recriminaes naquela voz desagradvel que a patroa sabia fazer muito bem, quando algum 
a aborrecia.
        Mas, para sua surpresa, a esposa do vigrio estava sorrindo.
        - Bem, no h dvida de que  uma garota de sorte, Carmela! Sua Senhoria estava me contando que tem planos muito vantajosos para voc.
        - A sra. Cooper foi muito gentil e compreensiva e disse que no vai impedir sua partida - disse Felicity.
        Carmela olhou para a amiga e percebeu que nos olhos dela havia uma expresso divertida, e que falava em um tom suave e envolvente que usava quando queria 
manipular algum.
        - Muito agradecida, senhora - murmurou.
        - Vou sentir sua falta, no posso fingir o contrrio - respondeu a sra. Cooper. - Mas Sua Senhoria prometeu mandar uma das moas l da cozinha do castelo 
para me ajudar.
        - Vou mandar uma, assim que eu voltar. E mais uma vez, obrigada, querida sra. Cooper, por ser to gentil. No se esquea de dar minhas recomendaes ao vigrio. 
Como no vou poder ir  igreja no domingo, porque Carmela e eu devemos viajar, ser que pode me fazer o favor de colocar esta pequena oferta na cesta, quando recolherem 
os donativos?
        Felicity abriu uma bolsinha de cetim e tirou cinco moedas de ouro.
        - Mas  muita bondade sua! Muita, mesmo! - exclamou a sra. Cooper.
        As duas moas se despediram e embarcaram na carruagem. S quando os cavalos se afastaram, entrando na estrada, Carmela perguntou:
        - Voc... me tirou mesmo daquela casa horrvel?
        - Pela sua aparncia, estava precisando. Minha querida, como  que tudo isso pde lhe acontecer em to pouco tempo?
        - Papai morreu no fim de janeiro e no pude escrever para voc porque no fazia idia de onde estava.
        - Estava na Frana. Primeiro, fiquei em casa de uma amiga de vov; depois, me hospedei com uns amigos dela. Por isso, mesmo que voc me tivesse escrito, 
duvido que recebesse a carta.
        - Deve sentir muita falta da condessa.
        A av de Felicity, que a criara desde criana, era a condessa de Galeston, uma senhora que inspirava muito respeito. O povo da vila tinha-lhe um certo medo, 
mas ela gostava bastante dos pais de Carmela e havia encorajado Peregrine, comprando-lhe vrios quadros.
        Como na vizinhana havia poucas crianas da idade de Felicity que sua av aprovasse, Carmela era a nica a freqentar o castelo, e as duas se tornaram inseparveis, 
com as bnos da condessa.
        S quando Felicity ficou mais velha, comeou a viajar para
        visitar os amigos da av, que a essa altura j no estava bem de sade e no podia acompanh-la.
        Mesmo seguindo caminhos to diferentes, sempre que Felicity voltava para casa a amizade das duas continuava como antes, e Carmela ficava feliz por ser sua 
confidente, ouvindo suas aventuras com admirao e sem inveja.
        - Fui um sucesso! Um grande sucesso! - Felicity gabava-se, depois de uma visita interessante, e Carmela acreditava.
        Agora, ia ser como nos velhos tempos, a amiga dizendo-lhe o que devia fazer e ela obedecendo, feliz e contente.
        - Quais so os seus planos?
        Os cavalos passavam pelos magnficos portes de ferro, ladeados por dois bonitos blocos de pedra que davam entrada para a alameda do castelo.
        - J lhe conto por que  que preciso da sua ajuda - disse Felicity.
        - Da minha ajuda?
        A outra virou-se para ela, ansiosa.
        - Vai me ajudar? Prometa que vai me ajudar!
        - Claro, querida. Sabe que farei o que quiser.
        - Era o que eu queria ouvir de voc. O que vou lhe pedir pode parecer estranho, mas quando fui procurar por voc sabia que no me decepcionaria.
        - E por que eu faria isso? Voc foi sempre um amor comigo. Esperou que a amiga falasse, imaginando, pelo ar srio de Felicity, que fosse alguma coisa diferente 
e, talvez, difcil de fazer.
        A outra olhava para o castelo, no alto, as torres recortadas contra o cu. Era uma construo nova, embora obedecendo a um estilo antigo. A condessa o comprara 
do antigo proprietrio, quando sentira necessidade de sacudir a poeira dos Galeston dos ombros e morar longe deles.
        Carmela tinha ouvido a histria, muitas vezes.
        A condessa havia sido muito bonita e uma figura proeminente da sociedade de seu tempo, mas tivera uma srie de desavenas com o filho e o resto da famlia, 
at que, finalmente, havia decidido que no tinha mais nada a ver com eles.
        Apesar de ter sido sempre uma pessoa dominadora e determinada, a princpio no acreditaram que fosse morar longe. Mas depois de muitas discusses e cartas 
amargas, trocadas entre a condessa e o resto da famlia Gale, ela finalmente deixou a manso do condado levando tudo que possua, inclusive a neta.
        Na verdade, a criana era o principal pomo de discrdia, porque a me de Felicity tinha morrido de parto e a condessa desaprovara a maneira como a estavam 
educando. Seu filho se interessava muito mais pelo filho homem e deixou que a av tomasse conta de Felicity, na esperana de que mais tarde a menina servisse de 
elo de ligao entre os dois.
        A condessa, no entanto, mudou-se para outra parte da Inglaterra. Como o filho era quase to obstinado quanto ela, o abismo entre eles foi-se alargando, at 
que deixou de haver qualquer comunicao.
        Quando a av morreu, Felicity foi para a Frana ficar com alguns dos amigos da condessa, e Carmela imaginou se faria contato com a famlia que no conhecia.
        Isso poderia no acontecer, mas evidentemente no seria correto ela ficar morando sozinha no castelo, sem uma dama de companhia.
        - Estamos chegando em casa - disse Felicity. - Assim que estivermos a ss, vou lhe contar a histria toda.
        - Est me deixando curiosa. H algum com voc no castelo?
        - No momento, no.
        A resposta de Felicity no soou muito natural e Carmela ficou cismada com a histria que a amiga teria para lhe contar e em que poderia ajudar. Fosse como 
fosse, estava muito satisfeita por ter deixado a casa do vigrio e no precisar mais suportar a grosseria das crianas e dos pais.
        Embora fosse grata ao casal, eles no eram pessoas agradveis.
        O vigrio, particularmente, parecia desconhecer a caridade crist e a sra. Cooper era uma mulher neurtica e cansativa que tinha muito que fazer e achava 
que havia cumprido a obrigao com os filhos, pelo simples fato de os ter posto no mundo.
        Que alegria entrar de novo no castelo, onde tudo era bonito, arrumado e de bom gosto! Por todo lado, havia arranjos de flores, e os empregados, elegantemente 
uniformizados, sorriam, dando as boas vindas a Carmela, que conheciam desde criana, fazendo com que ela se sentisse de volta ao lar, tal como Felicity.
        A amiga levou-a para a salinha de estar que as duas sempre consideraram como sendo delas.
        Tinha sido decorada pela condessa em tons de azul, cor que combinava com os olhos de Felicity; e os quadros representavam mulheres, em um estilo Fragonard, 
to elegantes como a prpria Felicity.
        - Gostaria de um refresco, senhorita? - o mordomo perguntou da porta.
        Felicity olhou para Carmela, que sacudiu a cabea.
        - No, muito obrigada, Bates.
        O mordomo fechou a porta e as duas ficaram a ss.
        - Tem certeza de que no est com fome? No deve ter conseguido tomar aquele caf horrvel!
        - S em pensar, fico enjoada! Oh, Felicity, no sou capaz de tomar conta de crianas. Pelo menos, daquelas crianas!
        - No  de admirar. Como pde pensar que seria feliz naquela casa?
        - E o que mais eu ia fazer?
        - Tinha obrigao de saber que eu ia querer que ficasse aqui comigo. E no me venha com orgulho, que no vou ligar!
        As duas desataram a rir. Havia entre elas uma brincadeira antiga, sobre os orgulhosos.
        - Quando as pessoas falam de caridade, acham que s pode ser dando dinheiro - tinha dito uma vez a condessa. - Mas  muito mais caridoso e muito mais difcil 
a gente se entregar de alma s outras pessoas.
        As meninas tinham gostado da idia e s vezes Felicity voltava para o castelo, dizendo para a av:
        - Hoje  tarde fui muito caridosa, vov. Conversei durante mais de dez minutos com aquela aborrecida srta. Dob-son e garanto que subi vrios degraus na minha 
escalada para o cu!
        - Tenho meu orgulho - disse Carmela, agora. - Mas se voc est pensando em ser caridosa comigo... aceito.
        -  exatamente o que quero fazer. Agora, oua o que tenho para lhe dizer.
        - Estou escutando e tenho um forte pressentimento de que voc est aprontando alguma.
        - Acho que tem razo. Eu vou me casar! Carmela sentou-se muito ereta na poltrona.
        - Casar? Oh, Felicity, que maravilha! Mas... com quem?
        - Com Jimmy, quem mais poderia ser?
        - Jimmy Salwick? Mas, Felicity, eu no sabia que a mulher dele tinha morrido.
        - No morreu! Carmela arregalou os olhos.
        - Eu... eu no estou... entendendo.
        - Ela est morrendo, mas ainda no morreu, e eu vou para a Frana com Jimmy e ficarei l at podermos nos casar.
        - Mas, Felicity, no pode fazer isso! Pense na sua reputao!
        - No adianta. Tenho que ir e voc vai me ajudar! Carmela parecia preocupada.
        Havia mais de um ano, sabia que Felicity estava apaixonada por lorde Salwick, que morava na vizinhana. Era um jovem bonito e atraente, que herdara uma propriedade 
arruinada e no tinha dinheiro para recuper-la.
        Como Felicity ia herdar muito dinheiro com a morte da av, estavam dispostos a esperar. Sabia que se contasse  condessa, esta colocaria todas as dificuldades 
do mundo porque, embora achasse James Salwick um rapaz atraente, no o considerava adequado para a neta.
        A condessa sempre se relacionara com a mais alta sociedade e, quando mocinha, tinha sido dama da rainha. Queria que Felicity se casasse com um grande nobre 
da corte e, inclusive, j havia feito uma lista dos duques e marqueses disponveis.
        - No vale a pena ficar discutindo com vov por causa de Jimmy - a moa costumava dizer a Carmela. - Sabe que, quando mete uma coisa na cabea, ningum tira. 
Se eu insistir em no casar com mais ningum, ela vai impedir que eu veja Jimmy.
        - Entendo. Mas, e se ela encontrar algum que ache ser o homem ideal para voc? - tinha perguntado Carmela.
        Felizmente essa situao nunca chegou a acontecer, porque a condessa adoeceu e Felicity foi para a Frana.
        Assim que a guerra acabou e a Frana voltou  normalidade, a moa foi mandada para um castelo no Loire, para ficar com uns aristocratas que, por milagre, 
tinham sobrevivido sem problemas  revoluo e s transformaes sociais impostas por Napoleo Bonaparte.
        Mas os conhecimentos da condessa no se restringiam  Frana. Depois, Felicity viajara para a Esccia, onde fora hspede de um duque; para a Cornualha, para 
visitar uma antiga famlia que tinha filhos na idade de casar, e ainda para Edimburgue, mais ao norte.
        Quando voltava, sempre contava histrias sobre as pessoas que encontrara e sobre os homens que tinham se apaixonado por ela. Mas assim que ficava a ss com 
Carmela, confessava que o nico por quem realmente se interessava era Jimmy Salwick.
        Ainda muito jovem, os pais o fizeram casar com uma certa jovem, que foi gradualmente enlouquecendo, at que finalmente teve que ser internada em um hospcio 
particular.
        Era um destino cruel, porque no havia maneira de Jimmy livrar-se da esposa, a no ser que ela morresse. Estava amarrado a uma mulher que na verdade mal 
conhecia.
        Foi inevitvel apaixonar-se pela linda vizinha da propriedade mais prxima.
        Sempre que via os dois juntos, Carmela notava que a amiga se tornava mais linda por causa do grande amor que sentia por ele.
        Mas isso no queria dizer que aprovasse o plano de Felicity.
        - No entendo por que vocs no esperam mais um pouco, querida. Se a mulher de Jimmy est morrendo, que diferena faz esperarem mais um pouco? J tiveram 
tanta pacincia, at agora!
        Que importncia teria, se a av no estava mais ali para tentar lhe arranjar um marido conveniente?
        - J sabia que voc ia dizer isso, Carmela, mas a situao  mais complicada do que parece.
        - Por qu?
        - Porque, assim que cheguei da Frana, soube que vov me deixou uma fortuna imensa.
        - Tanto dinheiro assim?
        - Tanto que voc nem pode imaginar! Nunca fiz a menor idia de que ela fosse to rica. Como sabe, vov brigou com papai e com o resto da famlia. Dizia que 
a exploravam, que estavam sempre esperando que ela pagasse tudo, e isso a aborrecia.
        - Sempre pensei que, morando aqui, ela s pudesse ser rica.
        - Sim, mas rica dentro dos padres normais. No, tendo uma fortuna colossal! Ela sempre manteve esse segredo.
        - Creio que no queria que seu pai soubesse.
        - , talvez; mas esse dinheiro j comeou a complicar tudo.
        - Por qu?
        - Porque, assim que o testamenteiro me procurou, e ele estava s esperando que eu voltasse da Frana, deixei Londres imediatamente e vim para c. - Carmela 
olhou para ela, sem entender, e Felicity explicou: - Tenho que ir embora com Jimmy, antes que ele saiba da minha fortuna ou que os Gale tentem se apoderar dela.
        Carmela continuava perplexa.
        - Eu... no entendo.
        -  muito simples. Primeiro, se Jimmy descobre que sou to rica, no vai querer casar comigo.
        - Por que diz isso?
        - Porque se sentiria humilhado e todos pensariam que  um caa-dotes. Por isso, me deixaria, partindo meu corao.
        Carmela teve que admitir que o que a amiga dizia fazia sentido. James Salwick era um homem orgulhoso. O fato de no poder restaurar a casa ou dirigir a propriedade 
como gostaria, deixava-o deprimido.
        Por outro lado, havia o drama da esposa, e Carmela sabia bem o quanto ele havia lutado contra o amor que sentia por Felicity, apenas porque no possua nada 
para lhe oferecer.
        Foi a moa quem se apaixonara primeiro por ele, durante uma caada, e depois havia forado sua presena.
        Carmela tinha conhecimento das desculpas que ela inventava para se encontrar com o rapaz quando ele menos esperava; que aparecia em sua casa ou dava um jeito 
de Jimmy vir ao castelo, sob os mais diversos pretextos.
        Quando ele finalmente se declarou, Felicity comeou a ter medo de perd-lo.
        - Ele me ama, ele me ama! - contou a Carmela. - Mas diz que no quer me atrapalhar e que, se eu quiser casar com outro, desaparecer da minha vida! Como 
vou viver sem ele? Oh, no posso perd-lo!
        Pensando novamente nisso tudo, Carmela percebeu o perigo que havia em James Salwick saber que sua amada era to rica. - E ele ir embora com voc? - perguntou 
alto.
        - Ir, quando souber o que aconteceu.
        - E o que foi que aconteceu?
        - Quando voltei de Londres, logo depois de ter falado com o advogado, sabe o que me esperava?
        - O qu?
        - Uma carta de meu primo Selwyn, o novo conde de Galeston.
        - Por que ele lhe escreveu?
        Depois de o irmo de Felicity morrer, um pouco antes da Batalha de Waterloo, o pai tambm morreu, de desgosto, sem deixar nenhum herdeiro direto. Isso significava 
que o ttulo tinha ido para o filho de seu irmo, primo direto de Felicity, um homem j de certa idade, que passara toda a vida no Exrcito.
        Carmela lembrava-se vagamente de ter ouvido essa histria toda, mas nunca havia prestado ateno especial no assunto, uma vez que Felicity sabia muito pouco 
sobre a famlia. Inclusive, havia s tomado conhecimento da morte do prprio pai pelos jornais.
        - E por que eu deveria me incomodar? - perguntou, quando Carmela lhe mostrou a notcia. - Vov no gostava dele e contava sempre que papai me detestava porque 
eu causei a morte de mame quando nasci.
        -  errado no se gostar dos parentes.
        - Minha bab costumava dizer que a gente pode escolher os amigos, mas que os parentes  o destino quem nos d.
        Carmela achou natural, agora que Felicity estava sozinha no mundo, os parentes se interessarem por ela, apesar de ser um pouco tarde.
        - O que o conde tinha para lhe dizer?
        A amiga apertou os lbios e respondeu, em um tom duro:
        - Informava que, uma vez que vov tinha morrido, ele era meu tutor e me ordenava, como se eu fizesse parte do seu batalho, que fosse para Galeston imediatamente 
porque tinha planos para o meu futuro.
        Carmela engoliu em seco.
        - No posso acreditar que ele lhe escreveu isso!
        - Mas escreveu! Voc vai ler a carta. Mas se ele pensa que vou obedecer, est muito enganado.
        - Mas, se  seu tutor...
        - Est se arvorando em meu tutor agora, s porque soube do dinheiro que vov me deixou. No sou boba. Se a herana tivesse sido apenas o suficiente para 
eu viver sem preocupaes o primo Selwyn no se incomodaria comigo, nem se interessaria em saber se eu estava viva ou morta. Mas como sou uma herdeira, tudo mudou 
de figura!
        - Como pode ter certeza de que ele  assim?
        Odiava o tom duro de Felicity e a expresso severa de seus olhos. De certa forma isso estragava a beleza dela, e Carmela gostava demais da amiga; no queria 
v-la amarga e cnica.
        - Vov dizia que eles eram um bando de interesseiros e tinha toda a razo! Estou certa de que primo Selwyn quer pr as mos em minha fortuna!
        - Oh, Felicity, isso  ir longe demais!
        - Por que voc est tentando mascarar as coisas? Papai morreu h dez meses e s agora, depois da morte de vov,  que o novo conde me ordena que v para 
Galeston. Prefiro morrer!
        - No sabe o que est dizendo! Felicity desatou a rir.
        - Claro que no  nada disso. Vou ficar viva e casar rapidamente com Jimmy, antes que ele descubra como estou rica. Uma vez casados, no h nada que ele 
ou o conde possam fazer!
        - Isso  verdade. Mas no pode casar com Jimmy... antes da mulher dele morrer.
        - Ela est morrendo! Eu j lhe disse! Jimmy recebeu uma carta do mdico, avisando que ela tem um tumor no crebro. Perguntei a vrias pessoas e todas confirmaram 
que quem tem esse mal no dura muito tempo.
        - No posso fingir que tenho pena. Ao mesmo tempo, acho melhor esperar, Felicity. Por favor, espere um pouco, antes de fazer... uma loucura.
        - No vou correr riscos desnecessrios.
        - Mas imagine que o conde descubra onde voc est e a traga de volta.
        - Essa  a arma que vou usar para fazer com que Jimmy me leve embora. Vou lhe mostrar a carta do primo Selwyn, e ele entender que h alguma coisa por trs 
de tudo isso.  claro que no vou deixar que pense que  dinheiro. Direi que o conde deve me querer l porque sou jovem e bonita.
        - Acha que Jimmy vai acreditar?
        - Vai. E voc sabe to bem quanto eu, Carmela, que ele me ama de verdade.
        - Sim, querida, sei que vocs se amam. Mas no fica bem viajarem juntos, a no ser que sejam... marido e mulher.
        Felicity deu uma risada.
        - Sei o que est pensando, mas no precisa se preocupar comigo. Jimmy me proteger, e tenho certeza absoluta de que no vai fazer nada errado at que eu 
seja realmente sua mulher.
        - Mas, se o primo Selwyn por acaso tentar anular o casamento porque sou menor de idade, ento, farei todos pensarem que estou grvida!
        Carmela protestou, mas Felicity acalmou-a.
        - Por favor, querida, eu sei o que estou fazendo. Jimmy  tudo que quero na vida e minha felicidade  ficar com ele. Por isso, voc tem que me ajudar.
        - Ainda no entendi como.
        -  muito simples; voc ir para Galeston no meu lugar e ficar l at eu estar casada com Jimmy!



CAPTULO II


        - No posso fazer uma coisa dessas...  impossvel! - repetia Carmela, sem parar.
        Mas sabia que no ia recusar por muito tempo. No seria capaz de contrariar os desejos de Felicity.
        Sempre tinha sido assim, desde que eram pequenas.
        Quando Felicity metia alguma coisa na cabea, era to obstinada e lgica que era impossvel dizer "no".
        - Mas eles vo saber que no sou voc!
        - E por qu? Ningum da famlia me v desde os cinco anos. - Fez uma pausa antes de acrescentar, com amargura: - No houve uma simples carta, de nenhuma 
de minhas primas, tias-avs ou de qualquer parente convidando-me para morar com eles depois da morte de vov, at esta do primo Selwyn!  bvio que s est interessado 
na minha fortuna. Na verdade, meu advogado disse que ele era a nica pessoa que estava a par da quantia que herdei!
        - Como  que sua av conseguiu manter um segredo desses de toda a gente?
        - Parece que a maior parte do dinheiro est investido na Jamaica e aumentou demais por causa da procura de acar. O advogado me disse que os outros investimentos 
na Inglaterra tambm renderam bastante. Pela fortuna que deixou, deve ser mesmo verdade.
        Carmela no fez nenhum comentrio. Passado um pouco, Felicity suspirou.
        - Isso tudo  mais uma grande responsabilidade do que uma sorte. Jimmy no vai gostar de eu ser to rica e nunca mais vou saber se as pessoas gostam de mim 
pelo que sou, ou pelo que possuo.
        - Todo mundo vai gostar sempre de voc por voc mesma.
        Felicity sorriu.
        - Era o que eu estava precisando ouvir. No quero me tornar como vov, que odiava todos os Gale porque sabia que estavam atrs do dinheiro dela.
        - Por favor, no se deixe estragar, querida. Entendo como deve ser uma preocupao ter tanto dinheiro e ser obrigada a esconder de Jimmy.
        - Se compreende, ento vai me ajudar.
        - Mas ningum acreditar que sou voc.
        - E por que no? Voc  to bonita como eu, e, quando usar minhas roupas, vamos parecer irms.
        Havia alguma verdade nisso. As duas eram loiras, tinham olhos azuis e peles perfeitas que despertavam admirao nos homens e inveja nas mulheres.
        Mas Felicity tinha uma elegncia sofisticada e Carmela parecia apenas uma bonita moa do interior, a quem faltava a segurana que s boas roupas poderiam 
dar.
        Felicity olhava agora para a amiga, estudando-a. Levantou-se e pegou-a pela mo.
        - Venha comigo, vamos l em cima.
        - Fazer o qu?
        - Voc vai se tornar igual a mim. Vamos comear penteando seus cabelos de um jeito moderno, e j resolvi lhe dar todos os vestidos que tenho usado desde 
que vov morreu.
        Carmela achou a idia tima, porque Felicity estava usando lils como luto aliviado. Quando o pai morreu, a moa no tinha dinheiro para comprar nenhum vestido 
novo; sua nica alternativa foi trocar as fitas do chapu e usar uma faixa preta.
       Andando ao lado da amiga, sentia-se uma perfeita gata borralheira. Alm de tudo, ainda vestia a mesma roupa manchada de ovo.
        Foram para o lindo quarto de Felicity. Havia malas no cho que no tinham sido desfeitas.
        - Como vou embora amanh - explicou a outra, antes que Carmela perguntasse -, dei ordens para no tirarem nada das malas. Mas estas so as que voc vai levar 
e onde esto todas as roupas que comprei ultimamente, que so pretas ou lilases.
        - O que voc vai usar? - perguntou Carmela, sorrindo timidamente.
        - Vou pedir a Jimmy para me levar a Paris e comprar um enxoval todo novo.
        - Paris? No  perigoso?
        - Os amigos franceses de vov moram em outros lugares da Frana; por isso, no  provvel que os encontre. Mas, se acontecer, eu apresentarei Jimmy como 
meu marido. Ningum tem nenhum motivo para no acreditar.
        - Voc parece muito segura de que Jimmy vai concordar com esse seu plano audacioso.
        Viu uma expresso de ansiedade nos olhos de Felicity.
        - Se Jimmy me ama, como sei que ama, no vai querer que eu v para Galeston, ser empurrada para um casamento com algum escolhido pelo primo Selwyn.
        - Acha mesmo que  isso que ele pretende fazer?
        - Tenho certeza! E aposto que deve ser com algum da famlia, para que possam manter o dinheiro.
        Carmela no discutiu. Sabia que no valia a pena argumentar, mas custava-lhe acreditar que os Gale fossem to desagradveis como a outra dizia.
        Mas a verdade era que um tutor, tal como um pai, tinha o controle de uma jovem at que ela fizesse vinte e um anos. Se o atual conde queria casar Felicity, 
tinha todo o poder para contratar esse casamento e ela no poderia fazer nada para impedir de ser levada ao altar com algum que no amava.
        Como seus pais tinham sido to felizes, Carmela sempre sonhara que ela e Felicity teriam a mesma sorte. E no havia dvida de que Jimmy era o nico homem 
que importava para a amiga.
        - Continuo achando o que vai fazer... errado - disse, em voz baixa, embora sabendo que Felicity no lhe dava a menor ateno. Tirava a correia do ba que 
j estava aberto.
        - Lembro-me do que as empregadas em Londres colocaram na parte de cima deste ba e  exatamente o que voc vai precisar para a viagem.
        - Pelo que vejo, no est nem levando em considerao que posso recusar.
        - Como voc se negaria, quando sabe que  to importante para mim? Se as coisas fossem ao' contrrio, eu faria tudo para ajud-la.
        - Como acabou de fazer - comentou Carmela, sorrindo.
        - Isso mesmo; salvei-a daquelas crianas selvagens. E, por mais feroz que o primo Selwyn possa ser, aposto que no  pior do que Henry Cooper!
        Carmela deu uma risada. Depois disse, sria:
        - Estou apavorada s de pensar que vou para Galeston e posso ser desmascarada a qualquer momento.
        - No ser por muito tempo. Assim que eu me casar com Jimmy, voc pode sair de l.
        - E que vou fazer, ento?
        - Deve vir para a casa de Jimmy, aqui, e esperar at voltarmos. Ento discutiremos o seu futuro, que eu prometo, querida, ser muito feliz e confortvel.
        - No posso aceitar seu dinheiro... - comeou a protestar Carmela, sem jeito.
        - Se comear a falar assim, dou-lhe um tapa! Se pensa que vou permitir que voc e Jimmy se comportem como se meu dinheiro estivesse contaminado, esto muito 
enganados! Ponho o dinheiro todo num saco e vou jog-lo no mar!
        Carmela teve que rir. Mesmo assim, disse:
        - Vou achar alguma coisa para fazer que permita pagar o meu sustento.
        - O que tem que fazer  casar. Vamos encontrar um marido encantador como Jimmy, e voc viver muito feliz para sempre.
        - No acho muito provvel... - Mas Felicity estava tirando os vestidos do ba e as palavras morreram em seus lbios.
        Nunca tinha visto roupas to maravilhosas. Havia uma branca, bordada com violetas, com as fitas no mesmo tom do bordado, e um vestido de noite que brilhava, 
coberto de pedras que pareciam ametistas e diamantes.
        - Voc pretende realmente... que eu use... esses vestidos?
        - Evidente! Para ser franca, j estou enjoada deles! Sinto uma falta enorme da vov, mas sabe que ela sempre dizia que luto a gente sente e que, se acredita 
em Deus, sabe que a pessoa no est morta, mas em um outro mundo melhor.
        - Mame costumava pensar a mesma coisa. De qualquer forma, no pude mesmo comprar nada para o luto de papai.
        - Ento, use estas roupas por mais um ms ou dois. Depois eu lhe mando outras mais alegres, de Paris.
        - No vai ficar meio estranho?
        - Com o dinheiro que voc supostamente tem, pode se cobrir de diamantes da cabea aos ps!
        -  como vou me sentir dentro desses vestidos.
        - Ento, v se vestir logo. Tenho que arrumar seus cabelos.
        Uma hora depois, Carmela olhava-se no espelho, abismada.
        Usava um vestido cor de violeta, com uma faixa de tom mais forte na cintura. A empregada de Felicity, Martha, tinha feito um penteado igual ao da patroa 
e colocado um pouco de p em seu rosto e carmim nos lbios. As duas pareciam gmeas.
        Martha estava com Felicity h anos e conhecia Carmela muito bem. Era a nica pessoa que sabia do segredo das moas.
        - No  que eu aprove o que Sua Senhoria vai fazer - disse para Carmela -, mas, quando ela decide, no h santo que a faa desistir.
        -  verdade. Mas voc acha, Martha, que algum vai acreditar que sou Sua Senhoria?
        - Espere at eu acabar, senhorita.
        Agora, Carmela tinha que admitir que estava totalmente diferente.
        - Tenha muito cuidado com o que disser l embaixo, Martha - avisou Felicity. - S pode falar que vamos viajar amanh.
        - O pessoal j sabe. Ningum me fez mais qualquer pergunta.
        - Felizmente.
        A empregada saiu do quarto e Carmela perguntou:
        - Como voc pode estar decidindo tudo, sem saber se Jimmy vai concordar?
        - Ele vai, sim, deve estar chegando a qualquer momento.
        - Deve querer ficar a ss com ele, no?
        -  claro. Vou lhe mostrar a carta do primo Selwyn. Depois, tenho certeza de que concordar com meus planos.
        Carmela hesitou, antes de dizer:
        - No acha que seria mais honesto contar-lhe toda a verdade, minha querida? Sobre o dinheiro, quero dizer. Depois de casados ele vai ficar sabendo; ser 
que no se zangar por voc no ter confiado nele?
        Pela maneira como Felicity apertou os lbios, Carmela percebeu que j tinha pensado a mesma coisa e sabia a resposta.
        -  um risco que tenho que correr. Acredito que, quando formos casados, nada ter importncia alm do fato de estarmos juntos.
        Mais tarde, vendo lorde Salwick olhar para Felicity com tanto amor, Carmela teve certeza de que a nica felicidade possvel para os dois era estarem um ao 
lado do outro.
        Ele chegou antes do almoo e Felicity no teve tempo de lhe contar o que estava acontecendo. Almoaram primeiro uma comida deliciosa, preparada pelo cozinheiro 
que estava-no castelo h mais de dez anos.
        Lorde Salwick parecia to feliz por ver Felicity novamente que no conseguia tirar os olhos dela. Embora tentassem contar o que cada um havia feito durante 
a longa separao, em certos momentos as palavras morriam e ficavam trocando olhares cheios de amor.
        Carmela se divertiu quando desceu para a sala antes do almoo e descobriu que, por alguns instantes, lorde Salwick no a reconheceu.
        Passado um pouco, ele exclamou:
        - Carmela! Como voc mudou! Pensei que fosse uma das amigas elegantes de Felicity que tinha vindo com ela de Londres.
        - No, sou eu mesma; mas plumas bonitas fazem pssaros bonitos!
        - Ora, voc est com roupa nova e mudou o penteado tambm.
        - Est como eu, querido. Depois do almoo, vou contar o motivo dessa transformao.
        Assim que Felicity falou, lorde Salwick se esqueceu de Carmela, como se a namorada fosse a nica razo da sua existncia.
        Logo que acabaram de almoar, Carmela subiu para o quarto.
        - Mando chamar voc, assim que acabar de falar com Jimmy - disse a amiga.
        - Tenha cuidado para no contar muitas mentiras!
        - Claro.
        Sozinha no quarto de Felicity, Carmela olhou para as malas. Ali dentro havia mais vestidos do que tinha possudo a vida inteira e a dvida de estar fazendo 
uma coisa certa ou cometendo uma loucura total voltou a sua cabea.
        Resolveu se convencer de que a nica coisa que realmente importava era ajudar Felicity a ser feliz. Adorava a amiga e no tinha o direito de pensar em si 
mesma.
        Por outro lado, ir para uma casa estranha, viver com pessoas desconhecidas, especialmente os Gale, de quem ouvira falar to mal, parecia-lhe assustador como 
voltar para casa do vigrio e ter que aturar aquelas crianas terrveis novamente.
        "Preciso ser corajosa", disse a si mesma, sabendo que no era.
        Desde a morte do pai sentia-se insegura e indefesa.
        E se falhasse? E se no momento da chegada, algum da famlia a denunciasse como uma impostora?
        Mil e uma coisas poderiam acontecer. Como vivera sempre com simplicidade, tinha pavor de no ser capaz de passar por Felicity, habituada a festas, bailes, 
recepes e viagens.
        "Talvez os Gale no saibam como ela ", tentou se consolar. Mas tinha o desconfortvel pressentimento de que haveria sempre lnguas ferinas e olhos observadores 
em seu caminho.
        Perturbada e ansiosa Carmela foi at a janela e, de passagem, olhou-se no espelho.
        Mal podia acreditar no que via. Por mais apavorada que estivesse, sua aparncia era realmente aquela necessria aos planos.
        Vaidosa como todas as mulheres, no pde deixar de sentir-se contente por usar um vestido to lindo e elegante.
        "Se papai me visse assim, ia querer pintar meu retrato."
        No entanto, sabia que o pai gostaria mais de pint-la como uma ninfa, usando alguma coisa difana e parecendo sair das guas ou descer das estrelas, se a 
pintasse  noite.
        "No momento, estou muito feliz com estes vestidos reais."
        Olhou para os que Felicity tinha jogado em cima da cama. Nunca havia imaginado que algum dia usaria roupas como aquelas. Parecia um sonho.
        Voltou  realidade quando uma empregada bateu na porta, pedindo para ela descer.
        Sentiu um aperto no corao ao entrar na sala, onde Felicity e lorde Salwick a esperavam. Os dois pareciam muito felizes e estavam de mos dadas.
        - Venha conversar conosco, Carmela. Contei a Jimmy como voc foi um amor, prometendo ajudar, e ele est muito agradecido.
        - Estou, mesmo - disse lorde Salwick. - Embora seja pedir muito de voc.
        - Eu... eu quero ajudar.
        - E vai ajudar muito, ficando em Galeston at podermos nos casar.
        - Agora entendo por que est to parecida com Felicity. S que...
        Lorde Salwick parou, como se o que ia dizer pudesse ser grosseiro, mas Carmela acabou a frase para ele:
        - S que ela  muito, muito mais encantadora do que eu algum dia serei.
        - Foi o que pensei - confessou, sorrindo. - Mas  lgico que sou suspeito.
        - Espero que essa seja sempre a sua opinio, querido. Se no for, pode ter certeza de que sentirei muito cime.
        - Nem metade do que vou sentir. Se voc se atrever a olhar para outro homem, eu a mato!
        Felicity riu, feliz da vida. Pegando a mo de Jimmy, encostou-a no rosto.
        - Seremos muito felizes e no haver lugar para mais ningum, alm de ns dois.
        - Pode estar certa disso, minha querida. Mas eu gostaria que tudo fosse mais fcil, e que pudssemos nos casar j.
        - No vai demorar muito - afirmou Felicity, confiante. - Mas no posso me arriscar a perder voc.
        - Nunca me perder. Embora eu ache que o que vamos fazer no esteja certo, no darei a seu primo a oportunidade de tentar cas-la com outro homem.
        - Sou capaz de apostar que  isso que ele quer. Se no, por que mandou me chamar assim de repente, sem ter falado nada antes?
        - Concordo.  muito esquisito. Vamos fazer o que voc quer. Agora tenho que ir para casa e tratar de deixar tudo em ordem, para que no haja nenhum problema 
enquanto eu estiver ausente.
        - Sim, claro! E no se esquea de que gostaria que um de seus empregados levasse Carmela para Londres.
        Carmela pareceu surpresa, e Felicity explicou:
        - Seria um erro que o velho Gibbons levasse voc. No poderamos ter certeza de que ele no comentaria nada com os empregados de Galeston. Alm disso, poderia 
se esquecer de trat-la por Vossa Senhoria.
        - Entendo, mas...
        - Est tudo combinado, querida. Jimmy tem um novo cocheiro que nunca nos viu e vai mandar o homem aqui, com ordens para levar uma senhora, que pensa que 
sou eu, para Londres, na carruagem de vov.
        - E... como  que vou de Londres para Galeston?
        - O primo Selwyn j tratou de tudo. "Eu" ficarei em Londres uma noite, e no dia seguinte uma carruagem dele me levar at Galeston. Decidiu tudo, naturalmente, 
pensando que devo ser uma incapaz.
        - Talvez esteja apenas sendo gentil e tendo considerao com voc - comentou lorde Salwick.
        - Para conseguir o que quer! No se esquea, meu querido Jimmy, de que ele no me mandou nem uma palavra quando vov morreu.
        - Tenho que concordar que foi uma atitude inaceitvel.
        - S gostaria de saber com qual dos falidos Gale ele est tencionando me casar.
        Carmela lanou-lhe um olhar de aviso, tentando preveni-la de que lorde Salwick poderia desconfiar que ela estivesse muito rica.
        Depois lembrou-se de que, mesmo sem saber o tamanho da fortuna de Felicity, era evidente que ela havia herdado alguma coisa da av, alm do castelo e tudo 
que continha.
        Como se recebesse uma transmisso de pensamentos, Felicity disse: - Vou manter o castelo aberto, at que tudo se resolva e Jimmy decida o que vamos levar 
para a casa dele.
        - Ento no ser melhor eu vir para c, assim que souber que esto casados? - perguntou Carmela.
        -- No. Voc pode ter que fugir e, se o primo Selwyn tentar persegui-la ou ser desagradvel,  melhor voc estar em um lugar onde no possa encontr-la.
        - S... sim...  claro. Mas espero que no fique muito zangado quando souber que foi... enganado.
        Felicity encolheu os ombros.
        - E que importa? Nessa altura eu j estarei casada, e ns cuidaremos de voc; no , querido?
        - Claro. No vamos deixar que volte a trabalhar com o vigrio ou qualquer coisa semelhante. Lamento sobre seu pai, no sabia que ele tinha morrido. Foi Felicity 
quem me contou agora.
        Carmela sentiu as lgrimas vindo aos olhos e no conseguiu dizer nada.
        Felicity abraou-a.
        - Est tudo bem, querida. No est mais sozinha. Estamos juntas! Gostamos muito de voc e no vai precisar sofrer mais, trabalhando para pessoas como os 
Cooper.
        - Eles... tentaram ser gentis - disse a moa com a voz trmula.
        - Ningum pode ser gentil, quando tem um monstro de filho como Henry!
        Carmela teve que rir.
        - Preciso ir - falou lorde Salwick. - Estar pronta se eu mandar busc-la s nove horas?
        -  claro que estarei! - respondeu Felicity. - Levo pouca bagagem porque quero comprar um enxoval completo na Frana, para voc me achar mais bonita.
        - Sempre a acharei linda.
        - Alm de Carmela e Martha, ningum sabe de nada. Vou dizer aos empregados que voltarei para Londres.
        - Vocs vo passar a noite em Londres? - perguntou Carmela, sabendo que tambm estaria l.
        - Vamos. Mas no na casa de vov, para no levantarmos suspeitas. Ficarei em um hotel, com um nome falso. S quando chegarmos  Frana  que seremos conhecidos 
como lorde e lady Salwick.
        - O que ser muito em breve - disse lorde Salwick, baixinho.
        Ficaram olhando um para o outro, esquecidos da presena de Carmela, que, sabendo que eles queriam se despedir, foi para o quarto deixando-os a ss.
        Tendo conseguido o que queria, Felicity passou o resto da tarde no cabendo em si de contentamento.
        S quando foram para a cama, bem cedo,  que falou seriamente:
        - Eu estou muito, muito agradecida mesmo, querida! No posso viver sem Jimmy e esta  a nica maneira de no perd-lo.
        - Isso nunca vai acontecer.
        - Vou lhe dar algum dinheiro. Sei como deve ter sido humilhante para voc estar l na casa do vigrio, sem um tosto. Tirando um envelope de uma gaveta, 
disse: - Aqui esto cem libras, em notas e moedas.
        - Cem libras? No preciso de tanto dinheiro!
        - Claro que precisa. E a h mais um cheque de outras cem libras, que pode trocar no momento em que precisar no Banco Coutts, em Londres.
        - Mas  demais!
        - Lembre-se de que  supostamente muito rica. Tem que dar gorjetas generosas e guardar dinheiro suficiente para o caso de ter que fugir, de repente. Pode 
precisar voltar em uma carruagem alugada. Quero ter certeza de que no lhe faltar nada.
        - Voc  um... amor.
        - Nem um pouco! Voc  que est sendo formidvel comigo. E pretendo lhe dar todo o dinheiro que precisar no futuro; no vai passar por aperto nenhum.
        Carmela ia dizer que o orgulho no lhe permitia aceitar, mas as duas se lembraram da velha brincadeira sobre o orgulho e caridade e caram na gargalhada.
        - No se atreva a falar nisso! - avisou Felicity. - De agora em diante, est sob minha responsabilidade, e, como serei a primeira a casar, faz de conta que 
 minha irm mais nova que terei que apresentar  sociedade.
        As duas voltaram a dar risadas com o absurdo da situao, mas assim que ficou sozinha Carmela teve que admitir que era quase verdade.
        Como a amiga era muito mais experiente e sofisticada, sentia-se como uma colegial, dando os primeiros passos em um mundo desconhecido, totalmente insegura 
de suas atitudes.
        Ao mesmo tempo, gostava daquele sabor da aventura; ter vestidos novos e bonitos e viver longe da casa do vigrio.
        "Deus vai cuidar de mim."
        Tinha certeza de que os pais a protegeriam de qualquer problema que surgisse naquela tentativa de ajudar Felicity.
        "Acontea o que acontecer, vou tentar no me arrepender."
        
        O conde de Galeston estava sentado na biblioteca de Galeston Park, com um mapa da propriedade aberto  sua frente.
        - Como no volto aqui desde criana - disse ao administrador, em p diante dele -, voc tem que me recordar os nomes dos bosques e das fazendas. E, evidentemente, 
quero saber tudo sobre os atuais arrendatrios.
        - Vossa Senhoria encontrar tudo no memorando que preparei.
        - J li, mas no est to completo como eu gostaria. Sabia que o homem  sua frente estava pouco  vontade
        e achava que suas suspeitas tinham fundamento. Parecia evidente que o administrador no s era incompetente e preguioso, mas, provavelmente, desonesto tambm.
        O conde tinha vindo para Galeston com as idias claras. sabendo que seria um grande erro fazer grandes mudanas de imediato. Como costumavam lhe dizer quando 
entrou no regimento, primeiro teria que conhecer a fundo a situao.
        Nunca, nem em sonhos, esperava herdar o ttulo ou qualquer das propriedades.
        De acordo com a tradio inglesa, como seu pai era o filho mais moo, todo o dinheiro da famlia pertencia ao primognito, enquanto seu irmo e sobrinho 
no podiam esperar nada.
        Escolhera o Exrcito como carreira e esperava servir no seu regimento at se aposentar.
        Por ser um bom soldado fora subindo merecidamente e, ao receber a notcia de que o tio morrera inesperadamente e que agora era o stimo conde de Galeston, 
j tinha o posto de coronel.
        Evidentemente, sabia que o herdeiro direto, seu primo, havia sido morto pouco antes de completar vinte e um anos, mas como o tio ainda era um homem jovem, 
vivo h muito tempo, o natural seria que voltasse a se casar para ter um outro herdeiro.
        Assim que se alistou, passou alguns anos na ndia; depois voltou com sir Arthur Wellesley, para participar da campanha contra Napoleo em Portugal e na Espanha; 
finalmente foi para a Frana, desafiar o imperador francs na Batalha de Waterloo.
        Selwyn Gale estava alistado no exrcito da ocupao, e s vrios meses aps ter herdado o ttulo  que se despediu relutantemente do regimento e comeou 
uma vida totalmente diferente daquela que conhecia at ento.
        Para comear, ficou confuso com a quantidade de propriedades e com a importncia e autoridade que sua nova posio lhe conferia.
        Tambm atnito ficou, quando descobriu como era rico. Estava habituado  falta de dinheiro e agora era difcil se acostumar  fortuna.
        Por outro lado, todos aqueles anos de pobreza lhe haviam ensinado lies que nunca esqueceria, alm de lhe permitirem entender os problemas das pessoas que 
passavam necessidade.
        S uma coisa o enfurecia: qualquer forma de desonestidade.
        Foi rpido em detestar entre aqueles que estavam a seu servio os que roubavam, trapaceavam ou tentavam ganhar dinheiro de maneiras pouco honestas.
        Assim que herdou, tomou conscincia de que um homem rico era presa fcil para os que queriam se aproveitar dele, se no tomasse cuidado.
        Foi levando as coisas devagar, observando tudo, sem dizer nada. Descobriu os que enchiam os bolsos s suas custas e cercou cuidadosamente os aproveitadores, 
at estar em posio de desmascar-los sem que pudessem se defender.
        Voltou a olhar para o mapa, antes de dizer:
        - Vejo que voc vendeu bastante madeira recentemente, Matthews. Gostaria de ter a nota de quanta madeira foi vendida e quem a comprou.
        O administrador pestanejou, e o conde teve certeza de que havia discrepncias entre as contas verdadeiras e as que o homem lhe mostrara.
        - Alm disso, no consigo localizar uma srie de ferramentas da fazenda relacionadas aqui; mas  claro que devem estar em qualquer lugar onde eu possa ir 
conferir!
        A essa altura, o administrador estava to tenso que no havia mais dvida de que falsificara o inventrio e os itens mencionados nunca tinham sido realmente 
comprados.
        - Por favor, quero essas informaes todas amanh de manh, Matthews. Quando as trouxer, mande o contador vir com voc. Quero falar com os dois ao mesmo 
tempo.
        -  Lane, senhor.
        - Eu sei. Para no perder tempo, diga-lhe para me trazer os livros dentro de uma hora. Assim, posso ir dando uma olhada.
        O administrador estava plido. O conde percebeu que os dois eram cmplices e que os livros estavam todos adulterados.
        Levantou-se.
        -  tudo, Matthews. Vejo voc amanh, s dez da manh.
        - Muito bem, senhor.
        O homem dirigiu-se para a porta, hesitou, e o conde soube que ele tentava achar uma soluo; ou confessar o que tinha feito, ou pedir demisso.
        Finalmente, tomou outra deciso qualquer. Saiu da sala e seus passos se ouviam cada vez mais lentos, l fora.
        O conde poderia apostar que, na manh seguinte, ele teria fugido, ou, ento, tentaria pr toda a culpa no contador.
        Apertou os lbios, com raiva. Como o tio tinha sido relapso, confiando em um homem como aquele?
        O pior era que suspeitava que ele fosse apenas um dos muitos que teriam que abandonar a propriedade, para serem substitudos por outros competentes e honestos.
        Era deprimente as coisas no serem como pensara. No estava sendo servido por empregados fiis, que reconhecessem o privilgio da posio que ocupavam.
        Mas desejar o contrrio era de um idealismo absurdo.
        Em todos os lugares havia pessoas de mau-carter, e mesmo na grandeza e esplendor de Galeston era natural encontrar cobras venenosas, prontas a dar o bote.
        Ao receber aquela herana tinha esperado, embora vagamente, que tudo fosse perfeito.
        Mas evidentemente era tolice achar que alguma coisa na vida pudesse ser perfeita! Ele  que teria que trabalhar e lutar para alcanar a perfeio.
        Apesar de tudo, olhando para o lago l fora e para as grandes rvores do parque e lembrando-se de que faziam parte dos dez mil acres que o cercavam, sentiu 
uma enorme felicidade.
        Tudo aquilo lhe pertencia... para sempre. Se tivesse sorte pertenceria aos filhos, que o continuariam.
        "No serei louco de ter s um filho", pensou, lembrando-se do primo, morto em combate. "Quero uma dzia!"
        Depois, comeou a rir. Primeiro, tinha que encontrar uma esposa!
        Agora no seria difcil. Em sua posio, teria muito para oferecer a uma mulher.
        Quando era apenas um soldado pensava que seria praticamente impossvel casar, a no ser que encontrasse uma esposa rica. Como no gostava de mulheres que 
tivessem mais dinheiro do que ele, tudo era complicado. As moas que poderiam atra-lo no se resignariam a viver com o salrio de um soldado.
        Claro que tinha tido vrios casos. Selwyn Gale era um homem bonito e atraente. Mas foram todos romances passageiros.
        Tanto ele quanto elas sabiam que no seria nada permanente porque, embora adorassem a fora de seus braos, o fogo de seus beijos e as sensaes que ele 
lhes despertava, no tinham a menor inteno de viver com dificuldades.
        - Amo voc, Selwyn! - disse-lhe certa noite uma de suas mais lindas amantes. - Por que voc no  um duque rico, ou um marqus com muitas propriedades? Assim, 
quando Harry morresse, o que  muito provvel, bebendo do jeito que ele bebe, poderamos viver felizes para sempre.
        Embora fosse um desabafo sentimental, Selwyn foi forado a reconhecer que o amor que ela demonstrava no era do tipo que durasse.
        Tinha certeza de que, assim que voltasse para o regimento, a mulher que estava agora em seus braos se consolaria com outro de Seus companheiros.
        Para ser honesto, ele mesmo no voltaria a se lembrar dela, por mais atraente que a achasse.
        O casamento era uma coisa que nunca tinha entrado nos seus planos, a no ser talvez quando os reformasse e precisasse de algum para lhe fazer companhia 
nas longas noites de inverno.
        Agora, aos trinta e trs anos, seu futuro era muito diferente e a necessidade de encontrar a pessoa certa para ser a me de seus filhos tornara-se uma parte 
muito importante de seus planos.
        "Vou pensar no assunto, assim que colocar em ordem as propriedades."
        Nunca se sentira to feliz na vida como agora, organizando e colocando em ordem a casa, suas propriedades e ele prprio.
        Era o trabalho que mais gostava de fazer. Embora no regimento todos brincassem por causa dessa mania de mudar e melhorar tudo, a verdade  que tinha um extraordinrio 
sentido de organizao.
        Tal como planejava as tticas de batalha, em que sempre perdia menos homens do que qualquer outro comandante, agora planejava os melhoramentos nas propriedades 
e estava decidido a organizar a prpria vida, at aos mnimos detalhes.
        "Primeiro, o que se tem que fazer primeiro!", disse a si mesmo, olhando para o parque.
        A porta se abriu atrs dele, e o mordomo anunciou:
        - Sua Alteza Real, o prncipe Frederich, acaba de chegar, senhor! Levei-o para o salo azul.
        - Obrigado, Newman, vou j falar com ele. Voltou-se novamente para a janela, dando mais uma vista de olhos para o jardim.
        Acabara de chegar outro problema para ele resolver; este, felizmente, j tinha uma soluo. Tudo estava sob controle, e saber disso o deixava muito satisfeito.
        Como se lhe custasse um grande esforo, afastou os olhos da janela e dirigiu-se para a porta, esforando-se para esquecer os prprios problemas e concentrar-se 
nos do prncipe que esperava por ele.
        Lembrou-se de Napoleo ter mencionado "as gavetas da mente". Era uma tima analogia; guardar os assuntos nos devidos compartimentos, fechando uma gaveta 
antes de abrir a outra.
        Divertido com a idia e sorrindo, atravessou rapidamente o corredor mobiliado com tesouros colecionados ao longo dos sculos pelos membros da famlia Gale, 
dirigindo-se para o salo azul, onde o prncipe o aguardava.

CAPTULO III


        Assim que a carruagem do conde, puxada por quatro magnficos cavalos, chegou perto de Galeston Park, Carmela sentiu-se mais assustada do que nunca.
        Na vspera, tinha sido excitante ir para Londres na carruagem da condessa. Mesmo quando chegou  Casa Galeston, em Park Lane, no se sentiu muito nervosa. 
Sabia, pela carta que Felicity lhe havia mostrado, que o conde no estaria l. Encontrou apenas o secretrio dele, um velho de modos encantadores, que recebeu Carmela 
como se fosse uma velha amiga, falando respeitosamente da condessa, que tinha conhecido no passado.
        Cansada da longa viagem, a moa fez a refeio no quarto e depois foi para a cama.
        Seguindo as instrues de Felicity, explicou que viajava sozinha porque, infelizmente, a sua empregada particular adoecera na ltima hora e tivera que ficar 
no castelo.
        - Ainda pensei em adiar minha chegada - disse para o secretrio do conde -, mas tive receio de que isso causasse algum inconveniente a Sua Senhoria e decidi 
vir sozinha.
        - Foi um grande transtorno para a senhora, mas providenciarei para que uma de nossas empregadas mais graduadas a acompanhe amanh na viagem para Galeston.
        Depois de uma noite repousante, Carmela at se divertiu ao conhecer a velha empregada que iria acompanh-la at o campo. Com uma touca nos cabelos grisalhos 
e uma severa capa preta sobre o vestido sbrio, era a prpria imagem da dignidade, e a moa pensou que sua chegada a Galeston seria perfeita.
        Durante a viagem, conversaram bastante e Carmela ficou sabendo uma srie de coisas que precisava saber.
        Primeiro, que o conde s tinha voltado do continente h dois meses. Isso explicava o fato de no ter sabido antes da morte da condessa, no ir ao funeral, 
nem mandar psames.
        A empregada tambm lhe disse que ele era um perfeito cavalheiro, embora estivesse habituado a comandar soldados a vida toda.
        Essa informao fez com que Carmela tivesse certeza de que Felicity tinha razo; ele era muito autoritrio e no admitiria que ningum contrariasse seus 
desejos.
        A velhota continuou falando dos tempos passados e Carmela pressentiu que os empregados andavam nervosos com as recentes inovaes, novas idias e obrigaes 
que no tinham tido no passado.
        Tudo aquilo parecia muito confuso, e a moa comeou a detestar a idia de conhecer o conde e ter que viver, mesmo por pouco tempo, sob as ordens dele.
        Se antes alimentava dvidas sobre a atitude de Felicity, fugindo com lorde Salwick antes do casamento, agora achava que a amiga poderia mesmo estar arriscando 
a felicidade se fosse para Galeston, como lhe ordenaram.
        "Preciso ter muito cuidado para no ser desmascarada, at que Felicity e Jimmy estejam casados."
        Rezou para que a esposa doente de Jimmy morresse depressa e Felicity, de quem tanto gostava, pudesse ser feliz.
        Naquele momento, a nica coisa que lhe dava alguma sensao de confiana eram os vestidos. Agora, usava um,
        lindo, de musseline branca bordado com amores-perfeitos e fitas. Por cima, um leve casaco de seda lils, com gola e punhos de veludo no mesmo tom. Estava 
to elegante que parecia ter acabado de chegar de Paris.
        - Gostaramos que a senhora ficasse aqui - disseram as empregadas. - Assim, poderamos ver todas as suas roupas maravilhosas. Faz muito tempo que no temos 
uma dama verdadeiramente elegante nesta casa.
        - Espero que o conde comece a dar festas muito em breve - respondeu Carmela, para dizer alguma coisa.
        - Espero que sim, senhora.  muito aborrecido ficar aqui sem ter quase nada que fazer, dia aps dia, ms aps ms. Mas como Sua Senhoria  um homem jovem, 
talvez ele se case.
        Olharam para Carmela, como se imaginando que ela poderia vir a ser noiva do conde.
        A moa disse a si mesma que essa idia era ridcula. -Afinal, o conde e Felicity eram primos em primeiro grau e a maioria das famlias no aceitava o casamento 
entre parentes to prximos.
        "Se ele tem em mente algum marido para Felicity, deve ser outro Gale que precisa de dinheiro. Devo tomar muito cuidado, seno ainda vou dar comigo casada, 
antes de perceber o que est acontecendo!"
        Era uma possibilidade assustadora, mas tinha certeza de que se preocupava  toa. Estavam na moda os noivados longos, e, em um ms ou dois, a esposa de Jimmy 
j estaria morta. Ento, Carmela poderia desaparecer.
        Apesar de todas essas consideraes, por mais calmamente que tentasse rever a situao, por mais que se esforasse para se convencer de que no precisava 
ficar nervosa, seu corao comeou a bater desenfreadamente, quando a empregada avisou.
        - Chegamos, senhora! Agora vai ver se ainda se lembra de como Galeston  lindo!
        - Como eu s tinha cinco anos na ltima vez em que estive aqui. acho que no me lembro de nada.
        Poucos minutos depois, ao ver a enorme manso a sua frente, achou que seria impossvel esquecer uma casa to magnfica.
        No passado a condessa lhe contara que a casa tinha sido construda para ser um mosteiro e, depois, reformada e aumentada por cada sucessiva gerao dos Gale.
        No sculo anterior, o av de Felicity acrescentara uma nova fachada com altas colunas corntias e comprara esttuas e urnas gregas para ornamentar o alto 
do edifcio.
        O resultado era imponente e o tamanho da casa fez com que Carmela se sentisse pequenina, insignificante e definitivamente apavorada.
        Os cavalos apressaram o passo, assim que cruzaram a ponte de pedra sobre o lago, que ia dar na alameda que terminava em uma porta imponente.
        Logo que a carruagem parou, foi estendida uma passadeira vermelha na escadaria da frente. Carmela percebeu que seria por ali que entraria na casa.
        Sentindo-se mais como se caminhasse para a guilhotina, desceu da carruagem, atendida por empregados com as cabeleiras empoadas e librs impecveis, que se 
inclinavam respeitosamente  medida que ela passava.
        Em resposta, sorria timidamente. Quando chegou ao topo da escadaria, o velho mordomo, que mais parecia um arcebispo, saudou-a, dizendo:
        - Bem-vinda, senhora!  um dia muito feliz, para aqueles que ainda se lembram da senhora, voltar a t-la conosco.
        - Muito obrigada. S gostaria que minha av pudesse estar comigo.
        - Era o que todos gostaramos, senhora. Como nos velhos tempos.
        Encaminhou-a para o grande vestbulo de mrmore, com esttuas e pinturas maravilhosas nas paredes.
        - Sua Senhoria est aguardando, ir encontr-la no salo.
        O mordomo abriu a porta de uma linda sala cujas janelas davam para o jardim cheio de lilases.
        - Vou informar Sua Senhoria da sua chegada - disse o mordomo, deixando-a a ss.
        Carmela respirou fundo. No se sentia  vontade naquele salo enorme. Foi at a janela.
        Subitamente, desejou estar no galpo com o pai, vendo-o pintar um dos seus estranhos e msticos quadros. L nada a preocupava, a no ser como pagar as contas.
        Agora, envolvida naquela farsa, tentando enganar o conde, sua situao era muito pior, perigosa e altamente repreensvel.
        Como pudera concordar com aquela mentira, quando sua me tinha passado a vida inteira, dizendo: " uma covardia tentar esconder a verdade. Temos sempre que 
enfrentar com coragem o que nos aparece na vida, por mais desagradvel que seja".
        "No estou mentindo por minha causa", protestou Carmela para a prpria conscincia.
        Mesmo assim, no conseguia deixar de sentir-se culpada.
        Ouviu a porta se abrir e teve a sensao de que o corao parava de bater. Virou-se lentamente e viu o conde se aproximando.
        No sabia bem que idia tinha feito dele, mas, como Feli-city o odiava tanto e falava dele com tanto desprezo, esperava ver algum magro, mesquinho e com 
um rosto cruel.
        Em vez disso, o homem que vinha ao seu encontro era alto, elegante, extremamente bonito e muito bem vestido. As roupas lhe caam com naturalidade, como uma 
segunda pele, e Carmela achou que ficaria ainda melhor em um uniforme.
        Mas assim que o conde se aproximou e ela viu o olhar penetrante e crtico, achou que, afinal de contas, talvez estivesse diante do ogro que esperava e que 
Felicity havia descrito.
        - Estou encantado em v-la, prima Felicity. 
        Carmela fez uma pequena reverncia e estendeu-lhe a mo. Quando o conde a pegou, sentiu a firmeza de seus dedos e teve a sensao desconfortvel de que a 
estava prendendo e que nunca mais conseguiria fugir.
        - Fez boa viagem?
        - Sim, obrigada. Seus cavalos eram rpidos e no demoramos muito.
        - Sente-se. Quer tomar um refresco?
        - No, obrigada.
        - O almoo deve estar pronto daqui a pouco. Tenho certeza de que quer ir dar uma volta, para rever este lugar que no v h tantos anos.
        - Sim,  claro.
        Tmida, no tinha coragem de olhar para o conde. Mas sabia que os olhos dele estavam fixos em seu rosto e pareciam penetrar em seu ntimo, como se ele suspeitasse 
de que ela no era quem fingia ser.
        Afastou a idia, sentindo-se ridcula.
        Era parecida com Felicity, estava vestida como Felicity, e ningum da famlia a via desde os cinco anos. Por que suspeitariam por um momento sequer que no 
fosse ela?
        - Vejo que ainda est de luto aliviado por sua av. Eu no estava na Inglaterra quando ela morreu, e s h um ms soube que voc tinha ficado sozinha.
        Carmela no disse nada. Limitou-se a inclinar a cabea, pensando que devia ter sido nessa ocasio que o conde ficara sabendo da fortuna que Felicity havia 
herdado.
        Como ele dava a impresso de esperar uma resposta, passado um pouco, respondeu baixinho:
        - Eu passei algum tempo na Frana... com uns amigos de vov.
        - Na Frana? Soube que no estava em casa, mas no pensei que estivesse fora.
        - Vov tinha sangue francs e sempre quis que eu visitasse a Frana. Guardava muito boas recordaes de l, antes da guerra.
        - E o que voc achou do pas agora?
        - Gostei muito, e das pessoas tambm - respondeu, evasiva.
        - Eles sofreram muito com Napoleo. S nos resta esperar que sejam capazes de reconstruir a nao e tomar parte na recuperao da Europa.
        Parecia que o assunto o interessava pessoalmente e Carmela olhou para ele, querendo fazer mais perguntas sobre a Frana, mas temendo por saber muito pouco 
a respeito.
        - Sempre ouvi dizer como esta casa era magnfica, mas  ainda maior e mais bonita do que eu esperava.
        O conde sorriu.
        - Foi o que senti quando voltei da Europa para ocupar o lugar de chefe da famlia. - Hesitou, antes de acrescentar: - Sabe que agora sou seu tutor, Felicity. 
Como tal, tenho planos para o seu futuro, que gostaria de conversar com voc mais tarde. Agora, estou certo de que gostaria de ir trocar de roupa para o almoo.
        - Sim,  claro. - A moa levantou-se rapidamente.
        O conde acompanhou-a at o vestbulo e, olhando para o alto da escada, disse:
        - Vai encontrar a governanta, a sra. Humphries, esperando por voc no seu quarto. Ela se lembra do seu nascimento. Sei que lhe dar toda a assistncia.
        - Obrigada.
        Carmela subiu a escada, satisfeita por se livrar do conde.
        Foi muito agradvel ser recebida com todo o carinho pela sra. Humphries, que lhe contou que ela tinha sido uma garotinha encantadora e que todos na propriedade 
sentiam muita falta de sua av.
        - Nunca houve ningum como Sua Senhoria - disse a velha, ajudando Carmela a tirar a roupa. - Parecia uma rainha, quando havia festas em Galeston. Mas naquela 
ocasio, eu era apenas uma mocinha e achava esta casa um palcio.
        - E parece mesmo! - disse Carmela, sorrindo.
        - Todos ns esperamos que o conde comece a receber e a dar festas, como antigamente.
        Continuou descrevendo como tudo havia ficado triste e soturno quando o jovem visconde fora morto na Frana e seu pai nunca mais havia se recuperado do golpe.
        - Sua Senhoria levou um choque muito grande! Sempre desejei que a senhora voltasse para lhe dar um pouco de carinho. Afinal, era filha dele, carne de sua 
carne.
        - Creio que nunca se cogitou a hiptese de eu voltar para junto dele - disse Carmela.
        Sentia que a sra. Humphries a censurava pela falta de considerao com o pai.
        - Toda essa guerra entre famlias  errada, senhora, esta  que  a verdade! J  muito mau quando  uma nao contra outra, mas quando se trata de uma guerra 
entre me e filho e a famlia se desfaz, no est certo e ningum vai me convencer do contrrio!
        - Concordo plenamente.
        - Bem, agora que est de volta, e embora seu pai j no esteja mais aqui, Deus tenha a sua alma, tenho certeza de que vai ajudar o conde, como ningum mais 
poder fazer.
        Carmela esteve prestes a dizer que Sua Senhoria parecia perfeitamente auto-suficiente e no deveria precisar da ajuda de ningum. Quanto mais pensava nele, 
mais o achava assustador, embora no exatamente da maneira que Felicity imaginava.
        Sabia que teria que tomar cuidado com ele, assim como tambm tinha percebido que a estudava.
        Admitia que era natural que ele estivesse reticente com uma pessoa que havia se isolado da famlia durante tantos anos, mas no gostava disso.
        Assim que trocou de vestido, colocando um branco, apenas com um lao lils nos cabelos e sapatos da mesma cor, a sra. Humphries levou-a at a escada.
        - A senhora parece sada de um quadro. Est linda! Agora, faa o possvel para ficar satisfeita, assim como ns estamos por t-la aqui. A, todos seremos 
felizes!
        A sra. Humphries deu uma olhada para baixo, e Carmela teve a impresso de que era para ver se o conde as escutava.
        "At os empregados tm medo dele", pensou sem saber por qu.
        Desceu, consciente da elegncia do vestido, de estar bem penteada e de que o p de arroz lhe ficava muito bem.
        Assim que um empregado atravessou o vestbulo para lhe abrir a porta do salo, ouviu vozes e percebeu que o conde no estava sozinho.
        No esperava por isso, e instintivamente apertou as mos, como que se protegendo para encontrar mais estranhos. Desejou que, se fosse algum da famlia, 
no cometesse nenhum deslize ou dissesse alguma coisa que a pudesse trair.
        Ao entrar, viu no fundo do salo, conversando com o conde um jovem que usava roupas estranhas. A gravata era muito branca, com um n complicado e espalhafatoso, 
o colarinho alto, engomado, que batia acima do queixo. O casaco, de to justo, parecia ter sido costurado no corpo. E a cala tambm. As botas altas, com fivelas 
douradas, brilhavam. Quando mexeu a mo, um anel brilhou como o sol que entrava pela janela.
        O conde e seu companheiro pararam de falar, assim que ela entrou.
        - Deixe que lhe apresente, senhor, minha prima Felicity Gale. Sua Alteza Real, prncipe Frederich von Horngelstein!
        Carmela fez uma reverncia e o prncipe inclinou-se tambm, dizendo, em um ingls perfeito:
        - Encantado em conhec-la.
        - Minha prima no vem a Galeston desde criana - explicou o conde - e est achando esta casa imponente, como eu acho.
        - Realmente, deve fazer uma certa diferena, depois dos lugares em runas e desconfortveis por onde voc andou durante a guerra - comentou o prncipe.
        - Principalmente em Portugal - respondeu o conde. - Mas no seu pas, senhor, estive muito bem.
        - Teve mais sorte do que eu! - O prncipe sorriu.
        Vendo-o de perto, Carmela percebeu que tinha traos estrangeiros. Imaginou que, quando o conde integrava o exrcito de ocupao depois de terminada a guerra, 
tinha estado no pas do prncipe.
        Tentou lembrar-se de onde era Horngelstein. Devia ser um dos pequenos principados alemes anexados por Napoleo e que, depois do Tratado de Viena, tiveram 
de novo a sua soberania.
        Sentindo-se ignorante sobre aquela situao toda, ficou agradecida por ver os dois conversando animadamente, sem esperar que ela participasse.
        Isso no queria dizer que o prncipe a ignorasse. Durante toda a refeio, Carmela percebeu que ele a olhava. Parecia medi-la, tal como o conde havia feito, 
avaliando os pontos bons e maus.
        Ainda no entendia a razo da estada do prncipe na Inglaterra, mas era evidente que estava em timas relaes com o conde, com quem falava com admirao 
e uma certa gratido. Deduziu que este o ajudara a restaurar a monarquia no pas.
        To logo tivesse uma oportunidade, procuraria um atlas para saber alguma coisa sobre a terra dele.
        O almoo foi excelente, servido por um batalho de empregados. A baixela de prata era linda e a prpria sala de jantar, muito bem decorada, com retratos 
dos antigos Gale pintados por artistas famosos.
        "Gostaria que papai estivesse aqui, comigo."
        Ele reconheceria de imediato o autor de cada quadro e certamente contaria alguma histria divertida sobre os artistas.
        Lembrava-se de que uma vez, quando falavam sobre pintura, ele havia dito:
        - O que eu mais gostaria de fazer seria levar voc a Florena ou a Roma.
        Carmela ficaria feliz em t-lo apenas ali, porque sabia que os Gale tinham uma magnfica coleo de pintura, no s inglesa, mas tambm de mestres franceses 
e holandeses.
        Ainda pensava no pai quando o conde perguntou, inesperadamente:
        - Est muito sria, Felicity. Preocupada com alguma coisa?
        - No. Apenas pensando nos seus quadros.
        - Quando eu conseguir de volta a coleo roubada por Napoleo, que a levou para Paris - disse o prncipe, antes que o conde pudesse falar -, acho que voc 
vai adorar. Alm de muito bonita, h exemplares de arte medieval que certamente vo interess-la.
        - Todo tipo de pintura me interessa. Diz que sua coleo foi roubada... Ser difcil recuper-la, agora que a guerra acabou?
        -  o que estou tentando fazer e preciso da ajuda de Sua Senhoria para ter certeza de que no serei enganado pelo governo francs.
        - J falei com o duque de Wellington sobre o assunto e ele prometeu fazer tudo que estiver ao seu alcance para que se faa justia.
        -  tudo que quero. - O prncipe virou-se para ela. - Penso, senhora, que justia  o que mais merecemos, depois dos horrores e privaes da guerra.
        - Claro. Espero que Vossa Alteza Real tenha sorte.
        - Com a sua ajuda, certamente terei.
        Carmela olhou-o, espantada. No devia ter entendido direito. O que ele devia estar querendo dizer  que esperava que ela apoiasse o primo na tentativa de 
descobrir os tesouros e lev-los de volta para o pas ao qual pertenciam.
        Quando acabaram de almoar foram para uma grande biblioteca, em vez de voltarem ao salo. O prncipe pediu desculpas e se retirou, deixando Carmela e o conde 
a ss.
        Ela no prestou ateno ao que diziam, encantada com tudo que via na biblioteca. Havia tantas coisas que gostaria de ler! O primeiro livro que precisava 
encontrar era um atlas. Assim que o prncipe saiu, fechando a porta, perguntou ao conde:
        - Como sou totalmente ignorante sobre o pas do prncipe, acha que poderei encontrar aqui um atlas entre esta magnfica coleo?
        - Tenho certeza de que deve haver um. Vou ver se encontro no catlogo. - Foi at uma mesa, onde estavam alguns livros e papis, dizendo: - Fico muito satisfeito 
por ver que voc se interessa por Horngelstein.
        - Estou interessada em saber onde  e que tipo de pessoa vive l. Pelo nome, presumo que falem alemo.
        - Horngelstein  na fronteira da Alemanha com a Frana; o povo  meio alemo e meio francs. Voc vai achar aquela gente encantadora, amvel e muito feliz 
por a guerra ter terminado.
        - Como muitos outros grandes povos.
        O conde folheou os papis, at que exclamou:
        - Aqui est o catlogo! Eu sabia que devia haver um. Procurou o que queria no catlogo e depois entregou a Carmela um livro com uma capa de couro vermelha. 
Sentando-se  mesa que havia no centro da biblioteca a moa comeou a folhear o volume, at chegar a um mapa detalhado da Europa.
        Apontando para um pequeno pas, o conde disse:
        - A est Horngelstein. Seu futuro pas!
        Carmela endireitou-se na cadeira, e s passados alguns segundos conseguiu perguntar:
        - Disse... "meu pas"?
        - Pensei que voc j tivesse adivinhado por que o prncipe est aqui.
        - Eu... eu no entendo o que est querendo me dizer.
        - Ento, deixe-me esclarecer tudo. Como seu tutor, arranjei seu casamento com Sua Alteza o prncipe Frederich! Na verdade, uma sada brilhante para voc.
        Carmela sentiu a fria domin-la.
        - Arranjou tudo... sem sequer perguntar a minha opinio?
- No posso acreditar que no esteja de acordo. 
        Pareceu-lhe sentir uma nota de verdadeira surpresa na voz dele e apressou-se a dizer:
        - Mas claro que no estou de acordo! Como pde pensar que eu, ou qualquer outra mulher, iria querer casar com um homem que nunca vi antes e com o qual falei 
apenas durante alguns minutos?
        O conde olhava para ela, como se no acreditasse no que ouvia.
        - Nunca me passou pela cabea que voc no fosse ficar deliciada com a idia de ser uma princesa reinante.
        - E o que o levou a pensar assim? Embora talvez no saiba, as mulheres tambm tm sentimentos; como todo mundo!
        Por instantes, ele pareceu no encontrar palavras.
        - Pode ser que eu esteja enganado, mas sempre pensei que os casamentos das moas fossem combinados pelos pais e que elas aceitassem sem reclamar.
        Carmela sabia que isso, infelizmente, era mais ou menos verdade. Jimmy Salwick tinha sido obrigado a casar to jovem porque tanto seus pais quanto os da 
noiva acharam que era conveniente, e nem pensaram na hiptese de os dois gostarem um do outro.
        Lembrava-se tambm de que Felicity falava de amigas que tinham casado com homens por quem sentiam total averso.
        Agora entendia muito bem os receios de Felicity em vir para Galeston; como o conde era seu tutor, no poderia ir contra os desejos dele.
        Mas Carmela lutaria. No s porque no era a herdeira que o conde pensava que fosse, mas principalmente porque seus pais a ensinaram a pensar por si mesma.
        Mesmo que o prncipe quisesse casar com Carmela Lyndon, uma moa sem vintm, ela nunca o aceitaria, nem a qualquer outro homem naquelas circunstncias.
        Felicity tinha toda razo em dizer que os Gale eram autoritrios e dominadores.
        Embora no fosse com nenhum Gale que a quisessem casar, no havia dvida de que o prncipe precisava desesperadamente de dinheiro para reconstruir o pas 
arrasado pela guerra.
        Era essa a razo de o conde ter arranjado aquele casamento com uma jovem muito rica.
        Carmela tinha conscincia de que o "primo" olhava para ela, intrigado. Se no estivesse em uma situao to delicada, at se divertiria com aquilo tudo.
        - Talvez - disse ele, passado um momento -, eu devesse ter exposto o assunto com mais cautela. Mas garanto que o prncipe  um homem encantador. Eu o conheo 
muito bem. Ele sofreu a humilhao de ver o seu pas invadido pelos franceses, seu palcio pilhado e outros tantos incidentes que sempre ocorrem durante uma guerra.
        - E presumo que tambm precise de dinheiro!
        - Claro. E no vejo melhor maneira de aproveitar a enorme fortuna que voc herdou, Felicity, do que ajudando esse jovem encantador a tornar seu povo feliz. 
O pas precisa de escolas e hospitais, e as igrejas tero que ser reconstrudas. Tenho certeza de que voc iria adorar essa ocupao.
        - Casar com um homem que no conheo?
        - Eu lhe disse que ele  uma pessoa formidvel.
        - Talvez seja a sua opinio, mas no  voc quem vai viver com ele em um pas estranho, cercado de pessoas que no conhece.
        - Estou certo de que logo voc far amizade com o prncipe e seus sditos.
        - Talvez, se eu quisesse. Mas deixe-me colocar tudo bem claro, senhor; no tenho a menor inteno de me casar por enquanto, muito menos com um prncipe estrangeiro 
que conheci h uma hora!
        O conde atirou o catlogo em cima da mesa e aproximou-se.
        - Isso  ridculo, Felicity! Acho que est errada tomando essa atitude. J lhe pedi desculpas por ter sido precipitado, mas sabe muito bem que precisa se 
casar, mais cedo ou mais tarde; e no quero v-la envolvida com caa-dotes.
        - E que outra coisa  o prncipe?
        Estava furiosa demais para ter medo do que dizia. Pensava como Felicity tinha sorte em estar na Frana com Jimmy e no ali, lutando contra o primo, que tambm 
comeava a se irritar. Havia uma expresso nos olhos dele e uma determinao em seu rosto que provavam bem a obstinao que sempre ouvira dizer que os Gale tinham 
quando eram contrariados.
        Os dois ficaram se desafiando mutuamente, e Carmela, sentindo a superioridade dele, quase se deixou subjugar.
        Felizmente, como no era Felicity, mas uma pobre sem dinheiro nenhum, podia lutar pelo que acreditava defendendo seus pontos de vista. Na hora da verdade, 
o prncipe no iria querer se casar com ela, simplesmente porque no tinha um tosto.
        - Na minha opinio,  totalmente errado uma mulher ser vendida como mercadoria em um balco. Como j lhe disse, ns temos sentimentos e no me casarei com 
um homem, por mais importante que seja, a no ser que o ame... e que ele me ame tambm!
        - Voc me deixa boquiaberto! Com a fortuna que tem, como vai saber se um homem a ama por voc mesma ou pelo seu dinheiro?
        - Acho que amor, o verdadeiro amor,  impossvel de se disfarar ou fingir! A no ser que a pessoa seja muito tola, saber distinguir os elogios e as falsas 
palavras de amor dos verdadeiros.
        Como ficou sem saber o que dizer, o conde afastou-se at a janela e olhou para o parque. Depois de um longo silncio, disse:
        - Creio que, como sou muito inexperiente com mulheres jovens, nunca me passou pela cabea que voc no aceitasse a minha deciso, que foi tomada para o seu 
bem. Na verdade, eu acreditava que estava lhe fazendo um favor.
        - Um favor que  um insulto a minha inteligncia!
        - Sempre acreditei que as moas, quando saem da escola, fossem bobas e sem personalidade. Mas voc, no h dvida, no  nada disso!
        - No conheceu minha av, mas deve ter ouvido falar nela. Os antigos empregados daqui nunca a esqueceram, e posso lhe garantir que viver com ela foi melhor 
do que ser educada na maior universidade do mundo. O conde deu uma risada.
        - Agora comeo a entender por que as pessoas com quem fiz contato, depois de ter herdado o ttulo, sempre se referiam  guerra entre seu pai e a me dele 
como uma coisa pica.
        - Deve ter sido mesmo. Ela saiu daqui jurando que nunca mais voltaria e construiu a vida dela em outro lugar.
        - E como voc foi com ela, presumo que vai inspirar tanto respeito e ser to determinada quanto sua av.
        - Sinceramente, espero que sim.
        Lembrou-se do quanto tinha admirado e amado a condessa. Era absolutamente verdade o que dizia. Estar com ela era a prpria educao, e tanto ela quanto Felicity 
tinham tido muita sorte em conviver com uma mulher to extraordinria.
        - Voc s tem dezoito anos, Felicity. Por mais bem educada que tenha sido, sua av morreu e agora sou seu tutor. Tem que me obedecer.
        - E se eu me recusar?
        - Ento, serei obrigado a usar outros mtodos, que francamente no gostaria de usar, para for-la a reconhecer minha autoridade.
        Carmela sorriu, irnica.
        - O que est sugerindo? Trancar-me em uma masmorra, se  que existe alguma por aqui? Matar-me de fome ou me bater at que eu me renda? Ou simplesmente me 
obrigar a ir aos berros para o altar?
        Falou desdenhosamente, mas, como sua voz fosse doce e maviosa, no soou to agressiva como gostaria.
        - Acho que ser mais simples do que isso tudo. Acredito que, como seu tutor, posso usar o seu dinheiro e gast-lo at que voc tenha vinte e um anos.
        Carmela ficou aflita. Se ele fizesse isso, Felicity no poderia mexer nas contas dos bancos, e no conseguiria avis-la do que estava acontecendo.
        Tentou pensar no que fazer, ou dizer, mas pressentiu que o conde j tinha notado que ela estava sem ao.
        "Eu o odeio", pensou, sabendo que teria que tomar muito cuidado para no prejudicar Felicity.
        Ficaram em silncio por muito tempo, at que o conde saiu de perto da janela, vindo ter com ela.
        - Acho que estamos os dois sendo muito precipitados, Felicity, lutando um contra o outro, sem pensar um pouco que estamos nos machucando. Podemos comear 
tudo de novo? Peo desculpas por ter agido to apressado e voc considera a minha proposta, calmamente.
        Carmela sabia bem que, embora tivesse havido uma trgua, a batalha no estava ganha e ele tinha toda a inteno de sair vencedor.
        Aceitando a paz temporria que ele lhe oferecia disse, baixinho:
        -  verdade que me pegou de surpresa. Mas se eu puder, como sugeriu, pensar melhor no assunto e tentar conhecer um pouco mais o prncipe... talvez eu venha 
a pensar de maneira diferente.
        Quando acabou de falar, teve a impresso de que o conde sorria, satisfeito.
        - Por outro lado - acrescentou, rapidamente -, deve compreender que vov morreu h pouco tempo e ainda estou de luto. Seria impossvel pensar em me casar 
nos prximos meses.
        Uma ruga apareceu na testa de Selwyn. Era evidente que ainda no tinha pensado nisso.
        - No acredito que sua av quisesse que voc ficasse de luto por muito tempo.
        - Acho que o tempo depende do que sentimos, e no dos cdigos que a sociedade impe.
        -  verdade. Por outro lado, Felicity, quero que pense no bem que poderia fazer com a sua fortuna, nas pessoas que iria beneficiar com sua generosidade e 
na felicidade que encontraria ao lado desse jovem admirvel.
        - Pode ficar descansado, que vou pensar em tudo isso.
        O conde estendeu a mo.
        - Era tudo que eu queria ouvir. Podemos ser amigos? No devemos comear outra guerra entre os Gale.
        Carmela no teve outra alternativa a no ser dar-lhe a mo, e novamente sentiu a fora daqueles dedos.
        Ele a estava dirigindo, envolvendo, e ela precisava lutar contra isso. 

CAPTULO IV


        Quando desceu para o jantar, usando um lindo vestido, Carmela pensou que se no estivesse to assustada, com medo de fazer alguma coisa que pudesse prejudicar 
Felicity, at que a situao seria bastante divertida.
        Como o conde tinha declarado uma trgua, tentava ser encantador e a tratava como uma mulher inteligente, em vez de uma colegial desmiolada.
        Nos ltimos dois dias percebera o esforo que ele fazia e sentira que, talvez pela primeira vez na vida, estivesse sendo obrigado a levar em considerao 
os sentimentos de uma mulher.
        Agora, Selwyn a inclua em qualquer conversa que tinha com o prncipe, perguntava sua opinio e at ouvia o que tinha a dizer.
        Carmela achava que normalmente estava habituado a ditar as leis e esperar que todos obedecessem.
        No entanto, o protocolo e as boas maneiras o obrigavam a ter deferncia para com o prncipe, embora fosse evidente que o jovem monarca sentia por ele verdadeira 
adorao.
        Fazendo um balano da situao, Carmela admitia que comeava a apreciar as conversas que tinha com o conde.
        Era uma verdadeira esgrima de palavras, um tentando tocar o outro.
        Sabia que o surpreendia com seus conhecimentos sobre arte, na verdade conhecia muito mais pintura do que ele.
        Mas o que o deixava mais surpreso era que ela possua uma tima percepo da situao poltica na Europa.
        Isso era devido ao pai, no que dizia respeito  arte, e  condessa, que por lidar com estadistas e polticos mantinha sempre um vivo interesse por tudo que 
acontecia no pas e no mundo.
        Todos os dias, Carmela e Felicity tinham que ler alto os discursos dos membros do parlamento, publicados no Times e no The Morning Post. A condessa lhes 
explicava o que no entendiam, e, como conhecia a maioria dos oradores, fazia sempre algum comentrio sobre os lderes polticos de ambos os partidos.
        Felicity achava essas sesses muito aborrecidas, mas Carmela se interessava bastante. E agora usava seus conhecimentos para surpreender e confundir o conde.
        "Por que ele pensa que todas as moas so estpidas?", perguntava a si mesma, indignada e resolvida a provar que estava completamente enganado.
        Na noite anterior, quando tiveram uma discusso sobre as reformas feitas para melhorar a vida dos camponeses, o conde havia dito:
        - Posso ter passado muito tempo longe da Inglaterra, mas no acredito que as coisas estejam to ms como voc diz.
        - Infelizmente, esto ainda piores. O mercado est inundado de comida barata que vem do resto da Europa e os camponeses daqui esto indo  falncia.
        Pela expresso dele, viu que no acreditava e acrescentou:
        - Pergunte quantos bancos regionais fecharam as portas no ano passado. E, se falar com seus arrendatrios, descobrir que esto lutando desesperadamente 
para manter as cabeas  tona d'gua.
        O conde ficou em silncio por um momento.
        - Pensei que jovens como voc estivessem muito ocupadas danando em festas, para saberem do sofrimento da classe trabalhadora.
        - Podemos ver e ouvir, mesmo assim. Da mesma maneira que voc podia ver o estado dos homens que foram mutilados na guerra e saber como esto vegetando em 
um pas que no lhes paga uma penso desde que foram desmobilizados e que aparentemente espera que vivam de esmolas pelas ruas.
        Furiosa com o sofrimento que tinha visto em Huntingdon e pelas notcias que lia nos jornais, Carmela falou agressivamente e seus olhos chispavam de uma maneira 
que o conde achou extremamente atraente.
        Olhou para o prncipe, na esperana de que ele no s estivesse prestando ateno no que ela dizia, mas que a admirasse, porm o rapaz olhava para o prato, 
brincando distrado com um pedacinho de po.
        - O que o est preocupando, senhor? - perguntou o conde.
        O prncipe estremeceu.
        - Pensava que, se essas coisas esto acontecendo em um pas prspero como a Inglaterra, como estar Horngelstein?
        Ficaram em silncio, e Carmela soube que o conde pensava que a resposta quela pergunta seria que, em breve, com a fortuna de lady Felicity, tudo comearia 
a melhorar.
        Como era um assunto perigoso, apressou-se a dizer:
        - Vamos falar de algo mais divertido. Tenho certeza de que Sua Alteza Real deveria estar em Londres nesta poca do ano, assistindo s festas que o prncipe 
regente est dando em Carlton House.
        - J esteve em alguma? - perguntou o prncipe. Ela sacudiu a cabea.
        - Eu deveria ser apresentada  rainha este ano, no Palcio de Buckingham, se minha av no tivesse morrido.
        - Deve ter sido decepcionante para voc.
        - Foi muito pior perder minha av, que era uma pessoa extraordinria. - Lanou um olhar provocador para o conde, acrescentando: - Ela era inteligente, alm 
de ter personalidade demais para o gosto da famlia Gale! Eles nunca sabero o que perderam quando vov partiu daqui, h tantos anos.
        - No pode me culpar por isso - disse o conde, brincalho.
        - Vov falava sempre como os Gale eram obstinados, dogmticos e relutantes em aceitar os pontos de vista das outras pessoas.
        Ele desatou a rir.
        -  o que pensa de mim?
        - Eu no seria indelicada com meu anfitrio, a ponto de acus-lo de ter alguma dessas caractersticas. Mas voc  um Gale!
        - E voc tambm.
        - H sempre uma ovelha negra em cada rebanho.
        -  o que se considera? Acho que poderia encontrar definies bem mais simpticas.
        - E eu tambm. - O prncipe interrompeu. -  muito bonita, lady Felicity; creio que j ouviu o mesmo elogio de dzias de cavalheiros.
        O cumprimento foi muito amvel, mas olhando para ele Carmela sentiu que, apesar de admir-la, no estava nem um pouco apaixonado por ela.
        Quanto mais refletia a respeito do assunto, mais certeza tinha de que o pensamento do prncipe andava muito longe e estava decidida a descobrir por qu.
        A oportunidade surgiu aps o jantar. Os trs conversavam no salo, quando o mordomo apareceu e disse qualquer coisa em particular ao conde. Imediatamente, 
ele levantou-se, desculpou-se e saiu junto com o mordomo.
        - Que ser que aconteceu? - comentou Carmela.
        - Tem muita importncia? - perguntou o prncipe, pegando um copo de conhaque e sentando-se no sof, ao lado dela. - Agora posso conversar com voc. s vezes 
penso que nosso anfitrio, embora encantador, exagera um pouco nos cuidados que tem com voc no a deixando nunca a ss comigo.
        - Certamente no temos nada a dizer um ao outro que o conde no possa ouvir.
        - Isso no  verdade. Gostaria de falar com voc a ss, lady Felicity, e  muito difcil cortej-la na presena de outras pessoas.
        Carmela desviou o olhar rapidamente.
        - No gostaria de tocar nesse assunto. Acabamos de nos conhecer, Alteza, e j deve saber que entre ns no pode existir mais nada alm de uma boa amizade.
        Tentava escolher as palavras com cuidado, e, passado um pouco, o prncipe disse:
        - Sabe que seu tutor concordou que voc se casasse comigo?
        - Ele me disse e eu o informei de que jamais me casaria com um homem que no amasse.
        O prncipe colocou o copo em uma pequena mesa ao lado do sof e, inclinando-se para Carmela, pegou-lhe a mo. Ela se endireitou, aborrecida com aquela atitude.
        - Meu pas e eu precisamos que voc seja minha esposa.
        - O que est querendo dizer - corrigiu Carmela -  que precisa da minha fortuna para reparar os estragos que a guerra causou. - Pensando que o prncipe podia 
ficar ofendido, apressou-se a acrescentar: -  uma grande honra que queira se casar comigo, mas como sou uma moa inglesa comum, quero me casar com algum que eu 
ame e que... tambm me ame.
        - E acha que no poderia me amar, quando nos conhecssemos melhor?
        - Talvez. Mas no posso deixar de sentir, Alteza, e perdoe-me se estiver enganada, que seu corao j pertence a outra pessoa.
        Foi um tiro no escuro, mas Carmela tinha quase certeza de que estava certa; de que o prncipe, quando ficava distrado, pensava em algum.
        Ele ficou tenso e, em vez de soltar sua mo, apertou-a com mais fora, como se precisasse de ajuda.
        - Por que diz isso?
        - Apenas sinto que pensa em uma pessoa e que ela representa muito para o senhor.
        O prncipe deu um suspiro profundo.
        - Voc ... como se diz... clarividente?
        - Ento  verdade?
        Ele concordou com a cabea.
        - E no pode se casar com ela? - perguntou Carmela, docemente.
        O prncipe voltou a suspirar.
        - Era tudo que eu queria, mas para dizer a verdade, sou um covarde.
        - Um covarde?
        Novamente apertou a mo de Carmela, como se esperasse que ela lhe desse foras.
        - Ela  tudo para mim neste mundo! Mas ... francesa!
        - Entendo. Depois de tudo que seu pas sofreu por causa de Napoleo Bonaparte, seu povo no vai querer aceitar uma princesa francesa.
        - Penso que com o tempo aceitariam; principalmente se no tivessem outra alternativa.
        Carmela entendia o dilema dele.
        - O que est dizendo  que, quando meu primo sugeriu que precisava de uma esposa rica, no se atreveu a lhe contar que tinha outros planos.
        - Exatamente.
        - Precisa ter coragem e casar com a mulher que ama, e no se deixar pressionar para aceitar uma esposa escolhida por outra pessoa.
        -  muito difcil para mim no fazer o que foi sugerido por seu primo e tambm pelo conselho de ministros de Viena.
        - Eles podem achar que, no papel, tm uma soluo para o seu problema, mas para um pas ser feliz  necessrio que o homem que o dirige tambm o seja.
        - Se eu pudesse acreditar em voc...
        - No quer me contar sobre essa jovem que ama?
        - O pai dela  um cavalheiro francs que vivia na fronteira com Horngelstein, at que Napoleo se tornou imperador e comeou a dominar toda a Europa. Ns 
nos dvamos bem com os franceses, assim como com todos os nossos vizinhos.
        -  o que vai acontecer novamente, agora que Napoleo est preso em Santa Helena - disse Carmela.
        - Tenho certeza disso. Entretanto, quando seu primo veio nos libertar das ltimas tropas de Napoleo, no s me levou de volta ao trono, como prometeu toda 
a ajuda possvel para recuperar nossas indstrias e diminuir a pobreza de meus sditos.
        Carmela sabia como o conde ia adorar reorganizar todo o pas e coloc-lo nos eixos, mas limitou-se a dizer:
        - Sempre pensei que as pessoas que acham que sabem o que  melhor para os outros so tiranas, e que se temos algum carter devemos decidir por ns mesmos 
o que nos interessa.
        - Era o que eu queria fazer, mas Gabrielle disse que preciso pensar em Horngelstein e me esquecer dela.
        - Se ela lhe disse isso, ento tenho certeza de que o ama muito.
        - Voc acha? - perguntou, ansioso.
        - Mas  verdade! Se uma mulher ama realmente um homem, tenta fazer o que  melhor para ele, por mais sacrifcio que isso represente.
        Para desistir de ser princesa, Gabrielle s podia amar demais o prncipe e no querer v-lo sofrer. "Eu faria o mesmo", pensou Carmela.
        - O que tem que fazer  voltar para a mulher que ama e lhe perguntar se tem coragem de enfrentar o fato de seus sditos serem ainda hostis  Frana e se 
vai ajud-lo a fazer com que tudo volte  normalidade.
        - Eles vo acabar amando-a, como eu a amo. Tenho certeza.
        - Como alguns deles tm sangue francs, estou certa de que a tarefa no ser to difcil como parece! Tenho lido nos jornais que a Europa est necessitando 
desesperadamente de todo tipo de materiais, ferramentas e outras coisas que no foram fabricadas durante a guerra, pois s se dava ateno s armas.
        -  verdade.
        - Deve haver muita coisa que pode ser fabricada em Horngelstein. Estou certa de que, se pedir um emprstimo  Inglaterra, ou aos pases que esto tentando 
reorganizar os negcios europeus em Viena, conseguir o necessrio ao menos para comear a movimentar de novo o pas e dar trabalho ao povo.
        O prncipe beijou-lhe a mo.
        - Obrigado, obrigado! Voc me deu alma nova. Agora, graas a voc, vou tentar me comportar como um homem. - Suspirou profundamente, como se lhe tivessem 
tirado um fardo muito pesado dos ombros e continuou: - Estou envergonhado por no ter resistido, quando seu primo me tentou com a sugesto de que uma esposa muito 
rica seria a soluo dos meus problemas. Ele disse que ia encontrar uma para mim e tornou as coisas to fceis que pensei estar agindo da maneira mais correta, sacrificando-me 
em favor do meu pas. Agora vejo como fui fraco, ou como voc diria... relapso.
        Carmela deu uma risada. Pensava no que a condessa dizia sempre: "Quando os Gale decidem qualquer coisa, passam por cima de tudo e de todos".
        - O que realmente aconteceu  que ficou ouvindo a conversa fiada de um vendedor que estava absolutamente convencido de que sua mercadoria era a melhor, mas 
que no lhe deu a oportunidade de explicar quais eram suas verdadeiras necessidades.
        O prncipe desatou a rir.
        - Acho que est sendo indelicada com seu primo. Mas no h dvida de que ele  muito dominador.
        - Todos os Gale so assim.
        - Exceto voc. E acho que no  s encantadora, mas convincente tambm. - Novamente, levou a mo de Carmela aos lbios, dizendo: - Obrigado, obrigado! Voc 
 maravilhosa, uma das mulheres mais atraentes que j conheci, e quero muito que conhea Gabrielle.
        - Vou adorar conhec-la.
        - Ns dois vamos reconstruir o meu pas juntos - disse o prncipe, alegre e com um brilho novo no olhar. - Quando for nos visitar, lady Felicity, ficar 
admirada com o que conseguimos!
        - Tenho certeza disso.
        O prncipe, de repente, olhou para a porta como se lembrasse do conde e perguntou, nervoso:
        - E o que vou dizer ao seu primo? Se lhe disser que mudei de idia, ele ficar furioso e talvez ofendido.
        Carmela pensou um pouco.
        - No pode dizer que recebeu uma mensagem do seu chanceler ou do primeiro-ministro, pedindo-lhe para voltar imediatamente para Horngelstein, por causa de 
uma crise qualquer? Diga-lhe que se ausentar apenas por poucos dias, talvez uma semana. Mas o que precisa fazer  partir o mais depressa possvel, para encontrar 
a mulher que ama e tratar de tudo para seu casamento.
        Enquanto falava, Carmela bateu as mos de contentamento.
        - No v que um casamento real, qualquer que seja a noiva, vai animar e levantar o nimo do povo no momento em que est deprimido, depois de tanta privao 
por causa da guerra? - Sorriu e continuou: - As mulheres vo querer vestidos novos para celebrar esse acontecimento romntico, e, se lhes disser o quanto ama sua 
futura esposa, tenho certeza de que vo desejar que seja feliz e no se importaro com a nacionalidade da princesa.
        O simples fato de o prncipe estar apaixonado provocaria uma reao positiva em todos os jovens, principalmente nas mulheres. Se ele e Gabrielle conseguissem 
contornar a situao com diplomacia, logo fariam desaparecer qualquer possvel oposio ao casamento.
        - Voc tem razo, claro que tem razo! - afirmou o prncipe. - Pensou um pouco e disse: - Na verdade, hoje recebi algumas cartas. Um mensageiro trouxe-as 
da nossa embaixada em Londres, mas nenhuma era importante.
        - O conde no sabe disso. Pode dizer que no quis estragar o jantar, contando-lhe antes. Para evitar qualquer suspeita, diga que teve uma conversa interessante 
comigo enquanto estivemos sozinhos e que prometi que teramos outra conversa sobre o assunto quando voltasse.
        O prncipe sorriu, com os olhos brilhando.
        -  uma soluo diplomtica, lady Felicity. Assim, o conde no ter nenhuma suspeita da razo da minha partida.
        - Claro. Seria um erro deix-lo saber que est fugindo. Ele riu, um riso alegre de criana.
        - Voc  maravilhosa! Talvez eu esteja cometendo um grande erro no insistindo em que se case comigo e governe meu pas da maneira de Catarina, a Grande!
        - No haveria nada que o desagradasse mais. Alm disso, sem querer ser lisonjeira, sei que ser um monarca muito bom e muito popular.
        - Obrigado!  difcil traduzir em palavras o que fez por mim e como me sinto diferente em relao ao futuro.
        - Vai dizer de novo que sou clarividente, mas pode ter certeza de que ser muito feliz com Gabrielle e que os dois juntos tornaro Horngelstein um grande 
pas.
        - Espero que sim! Sinceramente, espero que sim! Vou tentar por todos os meios ao meu alcance fazer com que suas palavras se transformem em realidade.
        Continuava segurando na mo de Carmela, agradecendo-lhe com uma sinceridade que ela sabia que vinha do fundo do corao.
        Os dois sorriam um para o outro, quando a porta se abriu e o conde entrou.
        Como Carmela estava virada para a porta, viu o conde antes do prncipe e percebeu que ele tinha reparado que estavam rindo e de mos dadas. Com certeza, 
daria outra interpretao ao que via. Com uma expresso satisfeita, aproximou-se dos dois.
        O prncipe largou a mo de Carmela e levantou-se.
        - Estava acabando de contar a lady Felicity, senhor, que infelizmente tenho que voltar a Horngelstein por uns poucos dias.
        - Vai nos deixar?
        - Realmente, era a ltima coisa que gostaria de fazer, mas recebi esta manh uma carta do meu primeiro-ministro, pedindo-me para ir l resolver uma pequena 
crise constitucional referente ao trono. - Deu um suspiro de lamentao, antes de acrescentar:
        -  algo que precisa da minha ateno pessoal, mas no levar muito tempo. Espero estar de volta daqui a uma semana.
        O conde enrugou um pouco a testa, mas quando falou j estava com uma expresso normal:
        - Vou sentir sua falta, senhor, espero sinceramente que volte o mais rpido possvel.
        - Como eu estava dizendo  encantadora lady Felicity, no vejo a hora de voltar.
        Sorriu para Carmela de um modo conquistador, que lhe deu uma vontade enorme de rir. Mas com um ar srio disse, cheia de pena:
        -  to aborrecido para Sua Alteza! Pelo menos, agora  muito mais fcil viajar pela Frana, especialmente nesta poca do ano.
        -  verdade. Se eu partir amanh de manh bem cedo, espero estar de volta no fim da prxima semana.
        - Ficaremos ansiosos pela sua chegada. No , primo Selwyn?
        - Claro. Vou mandar meus cavalos mais rpidos o levarem at Dover, onde meu iate estar pronto para atravessar o canal. Assim, ser mais rpido do que esperar 
pelos barcos de carreira, que acho que s fazem a travessia duas vezes por dia.
        -  muito amvel, senhor. No sei como agradecer tudo que tem feito por mim.
        - Nem  preciso. Vou tratar da sua viagem. Como sugeriu,  melhor sair bem cedo.
        Encaminhou-se para a porta, e assim que se afastou, o prncipe disse para Carmela.
        - Deu certo! Deu certo, mesmo!
        - Claro. Mas cuidado para no levantar nenhuma suspeita de que no vai voltar mais.
        - No, terei todo o cuidado. - Lembrando-se de um pormenor, perguntou: - Voc vai lhe dizer que no volto, logo que eu partir?
        - No vou dizer nada enquanto puder. No desejo que a raiva dele caia sobre a minha cabea, a no ser quando for inevitvel.
        - Ele tem sido muito prestativo e atencioso. Odeio ter que desagrad-lo, mas ao mesmo tempo...
        - O seu futuro  seu, no dele. - Carmela interrompeu.
        Ia fazer muito bem ao conde ser contrariado, ao menos uma vez. Talvez aprendesse a no interferir nos assuntos dos outros.
        Era uma sorte no ter nada a perder e poder desafi-lo. Com Felicity, tudo teria sido diferente; se no descobrisse que o prncipe estava apaixonado por 
outra, seria mesmo forada a casar com ele.
        "Tive muita sorte", pensou Carmela, sabendo que a clarividncia, como o prncipe chamou, ou fosse l o que fosse, era uma coisa que tinha nascido com ela.
        Um instinto ou talvez um dom, que Felicity no tinha.
        "Bem, agora ele vai ser feliz, e posso ganhar tempo at que Felicity esteja casada."
        Ela e o prncipe ficaram conversando sobre outros assuntos at o conde voltar. Novamente os encontrou juntos e alegres e pensou que seu plano corria s mil 
maravilhas e que estavam gostando um do outro.
        S quando Frederich se despediu, para ir ao quarto verificar se as malas estavam em ordem, Carmela e Selwyn ficaram sozinhos.
        -  muito aborrecido que o prncipe tenha que nos deixar justamente quando vocs dois comeavam a se entender to bem - ele comentou.
        -  um jovem muito atraente e mais inteligente do que pensei.
        - Esse comentrio me parece muito pretensioso, partindo de uma moa da sua idade.
        - Tem idias estranhas sobre idade. Deixe-me lembr-lo, se  que ainda no sabe, que no h como medir a inteligncia das pessoas, uma vez que ano aps ano 
ela se desenvolve da maneira mais diferente.
        - Sei disso.
        - Ento, tambm devia saber que algumas mulheres aos trinta anos no passam de umas frvolas desmioladas, enquanto que uma moa da minha idade s vezes tem 
massa cinzenta dentro da cabea.
        O conde desatou a rir.
        - Quando voc tenta me atacar como uma pequena tigreza, seus olhos soltam chispas de fogo e fico aturdido com tanta ferocidade.
        - Lamento, se  uma coisa que o desagrada.
        - Pelo contrrio, acho curioso. E creio que nosso convidado real tambm acha. Mas agora que ele est indo embora, tenho que resolver o que fazer com voc 
at que ele volte.
        - H cavalos para montar e uma grande parte da propriedade que ainda no vi.
        - Nem eu. Mas o que quero lhe perguntar  se gostaria de conhecer os membros da famlia, que devem estar ansiosos para v-la, ou os vizinhos, que tambm 
me convidaram mas ainda no tive tempo de conhec-los.
        Isso era muito perigoso.
        - Oh, por favor, vamos ficar sozinhos! No tenho vontade nenhuma de ser bombardeada com perguntas sobre vov. E como o tempo est timo, certamente no quero 
ficar dentro de casa, ouvindo conversas tolas de toda essa gente que est morrendo de curiosidade sobre voc tambm.
        - Deus me livre! Mas agora, pensando no assunto, eles vo achar muito estranho que voc esteja aqui sem a companhia de uma parenta mais velha.
        Carmela imaginou que achariam muito mais estranho ainda se soubessem que no era quem fingia ser. Sabendo que a companhia de uma pessoa mais velha seria 
muito maante, disse, rapidamente:
        - Francamente, creio que voc est no lugar de meu pai, e nem os Gale podem contestar isso!
        O conde deu uma risada.
        - A maneira como diz "nem os Gale" mostra exatamente o que pensa deles.
        - Sei o que eles pensavam de vov.
        - Certamente, no era pior do que ela pensava deles. S espero que voc no venha a pensar assim.
        - Como  o nico Gale que conheci at agora, vou inform-lo dos meus sentimentos assim que eles se tornarem claros para mim.
        - Est me deixando apreensivo - disse o conde, em tom de brincadeira.
        - No estou quebrando a nossa trgua.
        - Espero que no. Alm disso, estou muito satisfeito com a situao e cheio de esperana pelo que vai acontecer.
        Carmela sabia que se referia ao prncipe e, para lhe dar uma certeza maior, baixou os olhos, esperando dar a impresso de que estava embaraada.
        - Voc  muito bonita, Felicity, e com a imensa fortuna que possui, o prncipe  um louco em partir agora, sem uma promessa de casamento.
        - No ser por muito tempo.
        - Eu sei. Acho que estou com medo de que o arcanjo Gabriel desa do cu e a leve. Ou que surja outro pretendente ainda melhor para voc e eu no possa recusar.
        Carmela riu.
        - Acho que no  muito provvel que o arcanjo Gabriel aparea. Mas talvez Apolo possa me oferecer um lugar em sua carruagem enquanto cavalga pelo cu, e 
certamente que no irei recusar.
        - Os cavalos de Apolo no so mais rpidos do que os meus - gabou-se o conde. - E prometi ao prncipe que estariam  espera dele em Dover, quando voltasse, 
para voc no ter chance de escapar.
        - Parece acreditar que vou tentar.
        - Est me provocando de propsito, tentando me obrigar a mant-la prisioneira.
        - Seria uma experincia diferente. Tudo dependeria de quem fosse o carcereiro.
        Olhou para o conde para ver a reao quele novo duelo, e teve certeza de que achou que estava flertando com ele.
        Na manh seguinte, Carmela descobriu que continuava pensando no conde, tal como quando tinha ido deitar.
        Era um absurdo ele pensar que tentava atra-lo. A idia nunca lhe passara pela cabea, mas no era to absurda assim, afinal. Apesar de dominador, ele era 
um homem muito atraente.
        "Como ele poderia imaginar, por um s momento, que sua prima Felicity pensa nele desse jeito?"
        Se fosse esse o caso, certamente tentaria cas-la mais depressa ainda, para ver-se livre dela.
        Imaginava qual o tipo de mulher que atraa o conde, e por certo no era uma mocinha.
        Cada vez que pensava na maneira de ser dele, achava um insulto que esperasse sua obedincia cega.
        Sorriu, lembrando-se das conversas que tinham tido nos ltimos dias. Ele no havia conseguido disfarar a surpresa, cada vez que ela dizia alguma coisa inteligente 
ou discutia, obrigando-o a exercitar a cabea.
        Seria timo se conseguisse dar-lhe uma lio. J ia ser timo, quando soubesse que o prncipe no ia voltar e se casaria com a francesa Gabrielle, da qual 
provavelmente o conde nunca ouvira falar.
        "Vai ficar abismado, especialmente quando eu lhe disser que sabia da verdade o tempo todo", pensou, toda satisfeita. Estava louca para que isso acontecesse 
logo, para poder obrig-lo a perceber como havia errado, resolvendo cas-la s para realizar seus desejos.
        "Aposto que foi condecorado no Exrcito por sua admirvel capacidade de organizao", pensou, irnica, imaginando o que ele devia escrever nos relatrios 
para o duque de Wellington.
        "Pois bem, ele se enganou! No quis ouvir o que eu lhe disse? Agora vai ver!"
        Vestindo o traje de montar, desceu a escada, observando os retratos dos Gale, que pareciam olhar para ela desafiadoramente. Levantou o queixo e passou por 
todos eles.
        Tinha combinado de ir andar a cavalo com o conde s dez horas. Acordara cedo, mas no queria chegar antes dele e havia ficado fazendo hora no quarto, para 
deix-lo esperando.
        Realmente, Selwyn j estava l fora com os cavalos, falando com um servente que segurava o lindo animal destinado a ela.
        Os Lyndon nunca puderam ter bons cavalos, apenas um de caa para seu pai e outro que sua me montava. Mas Carmela tinha tido sorte de poder montar os cavalos 
do castelo e aprender com o mesmo professor de Felicity. Sabia montar muito bem.
        Sentiu que o conde ficou satisfeito quando a viu, possivelmente por no t-lo feito esperar muito. Ajudou-a a montar, segurando-a pela cintura.
        - Voc  to leve que duvido que seja capaz de manejar um cavalo to grande e nervoso como o Flycatcher.
        - Ele no vai disparar comigo, se  disso que tem medo.
        - Na verdade, eu estava elogiando voc. E ainda  muito cedo para comear a brigar.
        Carmela deu uma risada.
        - Desculpe. Acho que fiquei com medo de que insistisse em me dar um cavalo menor e mais dcil. Adoro o Flycatcher!
        - Ento, prometo no tir-lo de voc.
        Galoparam at Carmela ficar com o rosto corado e os olhos brilhando de entusiasmo. Ento, passaram os cavalos para trote e seguiram lado a lado.
        - Voc monta muitssimo bem. Tenho que admitir novamente que no  muito comum, em uma moa de sua idade.
        - Devo inform-lo de que minha av sempre dizia que os Gale nunca admitiam um erro.
        - Toda regra tem excees.
        O conde sorriu para Carmela, e os dois continuaram em silncio.
        Estava um dia lindo de sol, os pssaros cantando nas rvores, as borboletas esvoaando sobre as flores, e o mundo era to maravilhoso que Carmela sentia 
uma paz enorme e nenhuma vontade de discutir.
        Ainda havia to pouco tempo, estava na casa do vigrio, aturando a violncia de Henry e as queixas constantes de Lucy.
        Lembrou-se de como encarava o futuro nessa poca, sem esperana, triste e miservel.
        Agora, como se uma varinha mgica tivesse tocado sua vida, tudo mudara. Usava roupas que poderiam pertencer a uma princesa, montava um cavalo de raa, o 
mais lindo que tinha visto, e tinha a seu lado o homem mais atraente que conhecia.
        Pensou em todas aquelas bnos e teve vontade de se ajoelhar e rezar, agradecendo.
        Olhou para o conde. Sem dvida era muito atraente quando no estava sendo agressivo, e muito msculo tambm.
        Nesse momento, uma pergunta surgiu em sua mente:
        "Imagine, apenas imagine, que pudesse continuar cavalgando com ele como agora, para o resto da vida!"

CAPTULO V


        - Esta manh - tinha dito o conde quando saram de casa - quero ir at o topo da colina Gale. Lembro-me de que fazia isso quando era menino e gostava muito.
        Carmela pensou um pouco e lembrou-se vagamente de ouvir a condessa falar alguma coisa sobre aquele lugar. Mas como no tinha muita certeza, resolveu desconversar.
        Quando finalmente comearam a subir pelo bosque, chegaram a uma rea praticamente sem rvores que ia dar no topo. J tinham andado mais de cinco quilmetros, 
e os cavalos agora seguiam lentamente pela trilha estreita.
        No alto, a vista era realmente panormica, mas havia tambm uma espcie de monumento de pedra.
        Assim que desmontaram, Carmela perguntou:
        - Qual a razo deste monumento?
        - Vou lhe mostrar - disse o conde, sorrindo.
        Foi andando na frente, segurando o cavalo pelo brido, e Carmela o seguiu.
        Ao chegarem junto do monumento ela viu que era uma grande laje de pedra, com as pontas de um compasso gravadas. Nesse momento o significado veio-lhe a memria.
        - Agora me lembro! - Leu em voz alta a inscrio emtorno do compasso: "Todas as terras que voc v do alto desta colina pertencem  famlia Gale, desde 1547". 
O conde comentou:
        - Lembro-me da primeira vez em que vim aqui. Eu era to pequeno que achei a frase muito difcil de ler.
        - Eu me recordo que vov dizia que era mentira e que em um dia muito claro podia-se avistar outro condado que no pertencia  famlia.
        O conde ficou olhando para ela.
        - Isso  verdade?
        - S estou repetindo o que vov dizia. Nessas ocasies, ela falava da propriedade e de como os Gale gostavam de se gabar do que possuam.
        Estava provocando o conde e pensou que ele fosse rir. Em vez disso enrugou a testa e, olhando para a frase, disse, furioso:
        - Vou mandar tirar essa inscrio. Se h coisa que detesto so mentiras de qualquer natureza!
        Estava to zangado que Carmela ficou surpresa, imaginando por que uma coisa to sem importncia o enfurecera tanto.
        - Eu... lamento. No quis aborrecer voc. Talvez no devesse ter comentado o que vov disse. Talvez nem seja verdade.
        Ficaram em silncio por uns momentos.
        - Peo desculpas, Felicity, mas odeio que mintam para mim e acabei de ter um desagradvel exemplo disso.
        - O que foi que aconteceu?
        Por um instante, pensou que ele no ia contar. Mas depois, como se achasse que ela tinha o direito de saber, disse:
        - Quando cheguei aqui, percebi logo que seu pai tinha sido displicente em muitas coisas e que os empregados se aproveitaram disso.
        - Quer dizer que estavam roubando?
        - E em grande escala. Milhares de libras devem ter sido perdidas anualmente, no s por descuido, mas principalmente atravs de um roubo organizado por toda 
a propriedade.
        - Que horrvel! Galeston parece perfeita, o que ainda torna mais desprezvel essas atitudes contra um lugar to lindo e tranqilo.
        -  o que penso tambm. J apanhei os principais responsveis, mas estou convencido de que h mais.
        - Que cargos eles ocupavam?
        - O pior de todos era o administrador, um homem chamado Matthews. Era ajudado e acobertado pelo contador, Lane, que organizou uma verdadeira rede de gatunos 
ao longo dos anos.
        Carmela suspirou.
        - Acho tudo isso muito triste.
        - A mim me deixa furioso.
        - Voc os despediu?
        - Claro. Dei-lhes quarenta e oito horas para esclarecerem tudo e disse aos dois que, se depender de mim, nunca mais vo encontrar emprego.
        -  o que merecem.
        - Eles poderiam ir para a cadeia, ou ser enforcados, ou at deportados. Mas decidi apenas me livrar dos dois, porque quero proteger o nome de seu pai e da 
famlia, evitando um julgamento.
        - Foi muita bondade sua. O conde apertou os lbios.
        - Minha bondade desapareceu, quando soube que Matthews incendiou a casa dele antes de fugir! Agora, acho que vou mandar prend-lo.
        Carmela no disse nada. Se ele detestava mentiras, como se sentiria quando soubesse o que ela estava fazendo?
        No suportaria o dio dele. Assim que recebesse a notcia do casamento de Felicity, teria que fugir e se esconder onde o conde no pudesse encontr-la.
        Embora ele fosse muito autoritrio e estivesse muito errado em pensar que podia cas-la com o prncipe sem a menor considerao pelos seus sentimentos, no 
queria mago-lo.
        Depois, achou que estava sendo presunosa. Selwyn era to auto-suficiente e to seguro de si que a nica coisa que sentiria, seria irritao.
        Agora que se tornaram mais amigos e conversavam de igual para igual, Carmela tinha certeza de que ele apreciava as conversas e os passeios a cavalo tanto 
quanto ela.
        "Ele gosta de mim e acho que tambm confia em mim."
        Olhou de novo para o companheiro e teve medo do momento em que o conde descobrisse a mentira.
        Embaraada com os prprios sentimentos, fingiu admirar a vista que se estendia at a linha do horizonte. L embaixo, a casa, o lago e os jardins pareciam 
um brinquedo de criana.
        Podia ver as rvores do parque, as coras correndo, os cisnes no lago e a bandeira flutuando ao vento, acima das esttuas e das urnas gregas.
        O conde seguiu seu olhar e disse, em um tom calmo completamente diferente:
        - No quero que nada estrague isto tudo.
        - Claro que no. Sei que, com voc cuidando de tudo, vai ficar perfeito de novo.
        Falou com sinceridade e percebeu que o conde parou de olhar a vista, voltando-se para ela com um sorriso divertido nos lbios.
        - Est mesmo me elogiando, Felicity? Eis uma coisa que no me lembro de ter acontecido desde que chegou aqui.
        - Deve me achar muito indelicada e, principalmente, muito ingrata. Creio que ainda no tive oportunidade de elogiar Galeston e seu proprietrio porque tenho 
estado maravilhada com os dois. E tambm porque tinha... vergonha.
        - E agora?
        - Voc est tentando me forar a dizer que "convivncia traz familiaridade".
        - Esperava que lhe trouxesse amizade e alegria, porque  isso que quero para voc.
        - Se quer me ver feliz aqui, por que est me mandando embora de um lugar que comeo a amar, para um pas estranho onde nunca me sentirei em casa?
        Sabia que a lgica era irrefutvel e que o conde teria que mudar aos poucos sua maneira de pensar.
        Para sua surpresa, ele no respondeu; ficou olhando a casa l embaixo, embora Carmela tivesse a sensao de que no via nada.
        Sem mais nem menos, ele disse:
        - Acho que temos que voltar. Os cavalos precisam ir devagar, ou poderemos ter um acidente na descida.
        Percebeu que ele no queria continuar' a conversa. Talvez estivesse nervoso por ela usar a ausncia do prncipe para tentar mudar sua opinio a respeito 
do casamento.
        Como no queria aborrec-lo, pediu:
        - Ser que pode me ajudar a montar? No sei se vou conseguir sozinha.
        - Sim,  claro.
        Pegou-a como se fosse uma pena e colocou-a na sela, arrumando a saia em volta do estribo.
        - Muito obrigada.
        Ele levantou os olhos e os dois se encararam.
        Carmela teve a sensao de que Selwyn ia dizer alguma coisa importante, mas o conde desviou o olhar e montou, Carmela achou que tinha se enganado.
        Enquanto desciam, ela sentia o corao bater mais depressa.
        Voltaram pelo bosque, por um caminho diferente. Era quase meio-dia, quando atravessaram a ponte a trote e viram trs carruagens paradas na frente da porta.
        - Voc no me disse que tinha convidados para o almoo! - protestou Carmela.
        - No convidei ningum.
        - Ento, quem est a?
        - Pode ser que me engane, mas tenho o pressentimento de que voc vai conhecer alguns de seus parentes.
        - Oh, no! Espero que no! Mas o conde tinha razo.
        Carmela j deveria esperar que, mais cedo ou mais tarde, as novidades trouxessem os Gale voando para a manso, para conhecerem a moa que pensavam ser Felicity.
        Assim que trocou de roupa e entrou no salo teve certeza, pela semelhana com os retratos, de que eram os Gale.
        Algumas mulheres eram atraentes, embora no to bonitas como Felicity. Tinham todas traos parecidos; no havia dvida de que era uma famlia de gente bonita.
        Pouco depois de ser apresentada, descobriu o verdadeiro motivo da visita atravs de uma senhora de meia-idade que a levou para um sof, dizendo:
        - Sempre quis tanto voltar a v-la, Felicity, embora duvide que voc se lembre de mim.
        - Desculpe... mas no me lembro.
        - Voc tinha uma grande dificuldade em pronunciar o meu nome. Sou a prima Louise. Eu adorava sua av e dificilmente passava uma semana sem que nos encontrssemos 
para conversar.
        - Deve ter sentido muito a falta dela, quando foi embora.
        - No s senti, como fiquei muito magoada por nunca ter respondido as minhas cartas. Quando soube que tinha morrido sem ao menos me deixar uma lembrana, 
em memria do que eu acreditava ter sido uma grande amizade, mal pude acreditar!
        - Acho que vov no deixou lembranas para ningum.
        - Sei disso! Voc ficou com tudo! Deve se considerar muito feliz por possuir semelhante fortuna, enquanto o resto da famlia foi totalmente negligenciado.
        Carmela ficou pensando como a velha teria sabido do testamento da condessa, uma vez que Felicity e o conde tinham resolvido manter segredo.
        - Quando fui ao escritrio do advogado da famlia - continuou a senhora -, e pedi para saber qual era o testamento de sua av, no quis acreditar nos meus 
ouvidos ao descobrir que ela se tornara milionria depois que havia sado daqui.
        Carmela achou que tinha sido uma atitude muito indiscreta e que o advogado no poderia ter feito aquilo.
        Nesse momento, como se adivinhasse seus sentimentos, o conde aproximou-se das duas, dizendo:
        - Felicity, acho que no deve deixar que a duquesa monopolize voc. Seus outros parentes esto ansiosos para conversar tambm.
        Carmela levantou-se imediatamente. Agora percebia que o advogado devia ter falado s para se livrar da duquesa.
        Os outros primos no eram to importantes. Algumas das senhoras tinham se casado com nobres da vizinhana, embora Carmela no conseguisse estabelecer uma 
lgica naquela rvore genealgica da famlia de Felicity.
        Chegando de surpresa sem serem convidados pelo chefe da famlia, todos esperavam almoar na manso e pareceram muito surpresos, quando o conde lhes perguntou 
se iam ficar.
        - Mas  claro, Selwyn! - uma das mais velhas respondeu. - No espera que voltemos para casa sem ao menos tomar um refresco!
        Nessa altura, j estavam servindo champanhe e Carmela achou que o chefe de cozinha tinha poderes mgicos, quando, apenas vinte minutos mais tarde do que 
o habitual, sentaram-se  mesa para comer um almoo excelente, que Parecia ter sido planejado com uma semana de antecedncia.
        A conversa com a duquesa deu a Carmela a certeza de que seus supostos parentes no s a estavam olhando com curiosidade, mas tambm com inveja e uma certa 
dose de malcia. Percebia a dureza de suas vozes ao lhe perguntarem que planos tinha para o futuro e onde tencionava morar.
        - Ela pode ficar comigo, se assim desejar - disse a duquesa.
        Antes que Carmela tivesse chance de responder, algum comentou:
        - Sabe que no seria confortvel para voc, Louise. Eu estava mesmo pensando que Felicity poderia muito bem ficar comigo. Afinal, Mary  praticamente da 
mesma idade e as duas se divertiam juntas.
        Aquela conversa desencadeou uma verdadeira tempestade de argumentos, e Carmela achou que pareciam ces famintos disputando um osso.
        Tudo aquilo, s por causa da fortuna de Felicity.
        Teve vontade de dizer que no possua um tosto e que ficaria encantada em ter m lar confortvel para ir, quando sasse de Galeston. Ia ser uma bomba!
        Haveria um silncio mortal e todas as ofertas de hospitalidade morreriam nos lbios dos "parentes".
        Se precisava de uma prova para ter certeza de que Felicity tinha tomado a deciso certa fugindo com Jimmy, ali estava ela.
        Sentiu vergonha por aquela gente to bem-nascida e rica, comparada com ela, demonstrar to pouco carter.
        A discusso s terminou quando o conde falou, em um tom autoritrio:
        - Esto todos sendo muito generosos em oferecer um lar a Felicity, mas, como seu tutor, j fiz planos adequados para o futuro dela e vocs sero informados 
na devida hora.
        - Planos? - perguntou a duquesa. - Mas por que, Selwyn, deve ser voc a se preocupar sozinho?
        - Porque Felicity  rf e sou o chefe da famlia. Fez-se silncio. Contra tal argumento, os Gale nada poderiam dizer.
        Vendo todos pouco  vontade, Carmela falou, na voz mais doce e tranqila:
        - Obrigada, agradeo muito tanta amabilidade. Estou comovida por me quererem e agora no me sinto to sozinha... como tenho me sentido ultimamente.
        - Oh, minha querida criana, no precisa se sentir sozinha! - protestou uma das parentes. - Afinal, somos todos da mesma famlia e temos que nos manter unidos 
e ajudar uns aos outros.
        - Claro - disse a duquesa. - Ser que alguma vez pensamos o contrrio?
        A resposta que ficou por ser dada era que a condessa tinha se afastado de todos e levado Felicity com ela. Mas era uma coisa que no queriam declarar abertamente. 
Passado um momento de constrangimento a conversa voltou  normalidade e, por algum tempo, o futuro de Felicity foi deixado de lado.
        S depois do almoo, quando comearam a ir embora, um por um chamou a moa  parte, para dizer:
        - No queremos alterar os planos que Selwyn tem para voc, querida, mas no deixe de falar comigo se no se sentir feliz.
        A duquesa, no entanto, colocou as coisas mais claras:
        - Se estiver sendo obrigada a fazer alguma coisa que no queira, eu cuidarei de voc. Pelo menos, em homenagem a seu pai.
        - Obrigada.
        A duquesa pegou-a pelo brao e afastou-se com ela.
        - Agora escute, menina. No se apresse em casar com o primeiro homem que aparecer. Com uma fortuna como a sua, pode escolher o que quiser.
        Carmela sorriu, mas no disse nada.
        - E seria sensato - continuou a velha - pedir o meu conselho antes de tomar qualquer deciso.
        -  muita gentileza sua se preocupar comigo, madame.
        - Ouvi dizer que h um prncipe estrangeiro hospedado aqui. Ele  pretendente a sua mo?
        Como no parecia haver motivo para negar, Carmela respondeu, tranqilamente:
        - Acho que sim.
        A duquesa fez um ar sarcstico.
        - Eu j devia ter imaginado, quando soube esta manh que ele estava aqui. Voc precisa ter cuidado com estrangeiros. No se pode confiar neles, no so como 
os ingleses. Acredite no que digo.
        - Vou me lembrar do seu conselho, madame.
        A duquesa deu uma olhada para o outro lado do salo, onde o conde conversava com um parente.
        - Selwyn esteve fora por muito tempo, mas vai acabar se acostumando com a nossa maneira de ser. Pelo menos, .o que esperamos.
        Seu jeito de falar foi to divertido que a moa quase deu uma risada. Felizmente, outra parenta se aproximou, dizendo para Carmela:
        - Moro perto daqui e gostaria que fosse almoar conosco no prximo domingo, Felicity. Quero muito que conhea meus dois filhos. So ambos encantadores, e 
 timo que os primos se dem bem.
        - O que voc est querendo - interrompeu a duquesa -  que Felicity se case com um deles. Se o fizer, vai precisar de todo o dinheiro que tem para sustent-los 
nas mesas de jogo!
        - Como pode ser to indelicada, Louise? - Queixou-se; a me, ofendida.
        - Sempre digo a verdade.  por isso que Felicity deve me escutar e no dar ouvidos s conversas fiadas de todos vocs. Agora vou embora.
        A duquesa foi se despedir do conde e a me dos dois rapazes disse para Carmela:
        - No ligue para a prima Louise. Embora todos ns a respeitemos,  uma mulher muito amarga. Prometa aceitar o meu convite.
        - Vou falar com Sua Senhoria. Como deve calcular, tenho que pedir a autorizao dele.
        - Sim,  claro. Mas, embora Selwyn leve muito a srio suas obrigaes como chefe da famlia, na verdade  muito jovem para ser o tutor adequado de uma moa 
da sua idade.
        - Acho que isso  uma coisa que eu mesmo tenho que decidir - interrompeu o conde.
        Nenhuma das duas o tinha visto se aproximar.
        - No queria ofender voc! - a senhora apressou-se a dizer. - S estava pensando que a querida Felicity poderia ser mais feliz com uma famlia.
        O conde no respondeu, mas Carmela viu uma ruga em sua testa e um olhar divertido. Percebeu que, tal como ela, tambm estava achando graa naquelas ofertas 
todas que a fortuna, e no Felicity, provocava.
        Quando finalmente o ltimo Gale saiu, o conde comentou:
        - Espero que tenha gostado dessa exibio de hipocrisia descarada!
        Carmela comeou a rir.
        - Gostaria de saber se teriam feito tantos convites, se soubessem que voc era pobre. - Ele continuou.
        Era exatamente o que Carmela pensava, mas limitou-se a responder:
        - Talvez estivessem mesmo querendo ser gentis.
        - As pessoas so sempre gentis com os ricos.
        - Acho o comentrio muito cnico! Pode ser verdade para algumas pessoas, mas no para todas.
        - Pela parte que toca aos seus parentes, pode ter certeza de que era tudo conversa fiada!
        - Isso tambm pode incluir voc.
        - J devia saber que ia fazer esse comentrio. Quando sugeri que se casasse com o prncipe Frederich estava realmente convencido de que, do ponto de vista 
de uma mulher, no poderia haver nada melhor, nem mais atraente.
        Falou com toda sinceridade. Mas s para provoc-lo, disse:
        - Bem, pelo menos no posso me queixar de no ter escolha! Pelo que vejo, toda a famlia tem na cabea um pretendente  minha mo... e ao meu bolso,  claro!
        - Agora, quem est sendo cnico? De qualquer forma, voc precisa da minha autorizao para casar seja com quem for.
        - Est querendo dizer que pretende impedir os amigos e parentes de entrar na competio? Acho que vo considerar essa atitude muito pouco esportiva, como 
se voc estivesse apostando seu dinheiro em outro cavalo.
        O conde riu, francamente divertido.
        - Voc continua sendo uma surpresa para mim, Felicity. A maioria das mulheres no encara o casamento de uma maneira to frvola.
        - Preferia que eu baixasse a cabea feito um cachorrinho? Foi como me senti, quando meu casamento foi mencionado pela primeira vez. Mas agora, como parece 
ser o tema principal de todas as conversas, acho muito difcil ficar envergonhada.
        O conde ficou em silncio por uns momentos.
        - Tenho a impresso, Felicity, de que no est levando este assunto to a srio como eu gostaria. No entendo nada de jovens, mas algo que me diz que est 
se divertindo s minhas custas.
        Era mais perspicaz do que Carmela tinha pensado; o instinto lhe dizia que ela no sentia medo de ser levada como noiva do prncipe. No estava conseguindo 
engan-lo.
        Devia ser a primeira vez em que ele ficava realmente intrigado com algum, e isso o fazia pressentir que ela no era o que aparentava ser, embora no conseguisse 
encontrar uma explicao lgica para tal pressentimento.
        Como no queria que ele pensasse muito no assunto, resolveu dar uma explicao.
        - Recuso-me a ficar preocupada com esse assunto agora. Se est lembrado, tnhamos combinado de apanhar peixes no lago, como voc costumava fazer quando criana.
        - No me esqueci, mas pensei que voc tivesse esquecido. Carmela sorriu.
        - Bem, o que estamos esperando?
        O conde deu uma risada e saram em direo ao lago.
        Quando foi para a cama naquela noite, Carmela pensou que nunca na vida tinha passado uma tarde to agradvel.
        Poder falar com o conde a ss, conversar sobre dzias de assuntos diferentes, havia sido maravilhoso. Sentia uma felicidade que no conhecia desde a morte 
do pai.
        Depois do jantar ficaram horas  mesa, conversando sobre pases, povos, religies e filosofias. Para Carmela isso significava descobrir novos horizontes, 
ou como seu pai costumava dizer, "explorar as montanhas da mente", como nunca tinha feito antes.
        Ao se despedirem, Selwyn no se conteve e perguntou:
        - Como pode ser to inteligente? Eu fazia uma idia to diferente de voc!
        - Boba e sem graa, no ?
        - Agora fiz uma reavaliao correta e tambm dei um polimento nos meus conhecimentos e na minha inteligncia.
        - Gostaria de poder guardar essa confisso em um livro, como se faz com uma flor.
        Os dois riram e ainda conversaram mais um pouco, combinando o que fariam no dia seguinte.
        - Pensei que poderamos ir mais at ao fim da propriedade - sugeriu o conde. - Como vai levar vrias horas, se voc tiver coragem para enfrentar um pedao 
de po e queijo em uma estalagem, podemos tentar a expedio.
        - Vou adorar. Alm disso, gosto muito de po e queijo.
        - Muito bem, ento  o que faremos. Vou mandar servir o caf s oito horas.
        - No vou me atrasar. Boa noite, Selwyn. Adorei esta noite.
        - Eu tambm.
        Ele fez uma pequena reverncia e, para surpresa dela, pegou sua mo.
        - Boa noite, Felicity. Por favor, continue me surpreendendo. Talvez fosse mais correto dizer, intrigando. Estou adorando.
        Falou srio e beijou a mo dela.
        No era o que Carmela esperava. Ao sentir o calor dos lbios dele, conheceu uma sensao totalmente nova. Por instantes ficou muito quieta, olhando-o, intrigada.
        Depois, tmida, tirou a mo e subiu a escada correndo, sem olhar para trs.
        Teve a sensao de que ele havia ficado olhando para ela, mas tentou se convencer de que estava imaginando coisas.
        No quarto, uma das empregadas mais velhas ajudou-a a se despir. Quando foi para a cama, ficou deitada pensando no conde e no beijo.
        Era o que tinha esperado que o prncipe fizesse, no ele.
        Recordou tudo que haviam dito um ao outro: "Creio que, como  to inteligente e sagaz, me torna inteligente tambm".
        Pensou no que poderia lhe dizer no dia seguinte, tentando encontrar frases que o provocassem. Estava quase dormindo, quando ouviu a porta se abrir.
        Viu algum entrar, com uma vela na mo.
        - O... o que ?
        Quando a pessoa se aproximou da cama, reconheceu uma das jovens empregadas que s vezes a ajudava.
        - O que foi Suzy?
        - Desculpe se a acordei, mas Sua Senhoria pediu para a senhora descer. Houve um acidente e ele est precisando de sua ajuda.
        - Um acidente? - Carmela sentou-se na cama. - Que tipo de acidente?
        - Acho que com um dos cachorros, senhora. Sua Senhoria disse apenas para eu vir cham-la.
        Carmela saltou da cama, lembrando-se de que havia vrios ces que, por ainda no terem sido treinados, eram mantidos nos estbulos.
        "Quero cachorros que sejam meus e que fiquem sempre comigo, mas tenho que resolver outras coisas por aqui. Depois pensarei no assunto" - o conde havia dito.
        No entanto, Carmela havia reparado que, sempre que ia aos estbulos, ele acariciava os ces, que saltavam de alegria assim que o viam.
        Calando os chinelos, comeou a procurar um roupo. O que tinha perto da cama era transparente e Suzy foi at o guarda-roupa pegar outro, de cetim forrado 
mas pesado e quente demais para se usar na primavera.
        Ao fechar os pequenos botes de prola, imaginou que se algum dos Gale a visse sair assim ficaria muito chocado. Mas pouco se importava com a opinio dos 
outros. O importante era que o conde precisava dela.
        - Sua Senhoria tem ataduras?
        - Tem, sim senhora. Ele tem tudo que  preciso, mas mandou chamar a senhora.
        Carmela passou uma escova nos cabelos.
        - Estou pronta!
        - Eu mostro o caminho, senhora.
        Pegando o candelabro, Suzy foi para o corredor. Dirigiu-se para a escadaria que dava no estbulo, mas no desceu por ali. Continuou at a ala oeste da casa, 
onde havia uma escada estreita.
        A criada andava to depressa que Carmela tinha medo de ficar para trs na escurido.
        Chegaram a um corredor estreito, que a moa imaginou ser nas dependncias dos empregados. Deviam estar indo para os estbulos.
        De repente, Suzy entrou em uma passagem lateral e abriu uma porta.
        Carmela seguiu-a. Subitamente, algo spero, escuro e espesso foi jogado em sua cabea. Deu um grito de pavor mas sua voz ficou abafada pela espessura do 
pano que a envolvia.
        Braos fortes a agarraram.
        - O que est acontecendo? Ponham-me no cho!
        Mas no adiantava gritar. Os braos que a seguravam, a apertavam com tanta fora que tinha a sensao de que iam quebrar seus ossos.
        Com brutalidade, foi atirada para o que pensou ser uma carruagem. Mesmo antes de conseguir sentar-se direito, os cavalos comearam a andar.
        Aterrorizada, percebeu que acabava de ser seqestrada!


CAPTULO VI


        A carruagem seguia aos trancos e solavancos. Talvez viajassem pelo meio do campo, e no por uma estrada ou mesmo um atalho. Carmela tentava desesperadamente 
imaginar para onde estava sendo levada e quem se encontrava a seu lado.
        Apesar da grossura do tecido que a cobria at os joelhos, tinha a desconfortvel certeza de que seu companheiro era um homem.
        Depois de jog-la na carruagem no a tocara mais, mas o simples fato de saber de sua presena a deixava to apavorada que estava a ponto de gritar.
        No entanto, de nada adiantaria. Primeiro, ningum ouviria; depois, mal conseguia respirar debaixo daquele tecido grosso.
        Devia ser um tipo de feltro, porque embora malevel, era desagradavelmente spero.
        No que o desconforto a incomodasse. O que a preocupava era no saber o que ia lhe acontecer.
        O motivo do seqestro era fcil de perceber.
        Agora que a extenso da fortuna de Felicity era conhecida de todos os Gale, j devia haver mexericos por toda a regio, e tanto os camponeses quanto os empregados, 
tambm deveriam saber.
        Parecia evidente que algum a estava levando para depois pedir um resgate. S esperava que o conde pagasse sem demora.
        Lembrou-se, no entanto, que s poderia lhe devolver o dinheiro no caso de Felicity concordar.
        O fato de no ter um tosto tornava tudo mais complicado. Ficou imaginando o que a amiga faria naquela circunstncia, se tivesse sido ela mesma a atacada, 
como pensavam os seqestradores.
        "A nica coisa que no devo fazer, em hiptese alguma,  desafi-los.!
        Tinha lido sobre pessoas torturadas porque no davam as informaes que lhes pediam sobre seu dinheiro ou jias, e sabia muito bem que era uma covarde!
        Se lhe fizessem mal, teria medo demais e concordaria com tudo que exigissem.
        Por outro lado, talvez o conde pensasse de outra maneira.
        Sabia que nada poderia enfurec-lo mais do que se ver na humilhao de ter que pagar um resgate sem poder prender os criminosos.
        "E se ele se recusar a pagar?" pensou, aflita.
        Estremeceu de medo. Recordava-se de histrias passadas no Oriente, em que a vtima s vezes era mutilada para obrigar o pagamento do resgate.
        Primeiro, podiam mandar um dedo; depois, uma orelha; finalmente, o nariz.
        A idia era to terrvel que Carmela desejou estar inconsciente para no pensar naquelas coisas, mas sabia que o instinto de autodefesa a manteria alerta 
at o ltimo momento e seu raciocnio estaria mais aguado ainda.
        A carruagem seguia sem parar.
        Embora pudesse mexer as mos debaixo daquele pano, tinha medo de levant-lo e ser agredida pelo homem que estava a seu lado. Para no ficar com os msculos 
entorpecidos, esfregou o p no tornozelo, com todo o cuidado, para no chamar a ateno. Como tinha os sentidos alerta, achou que ouvia o homem respirar pesadamente.
        Ele tossiu e mexeu-se.
        Com os solavancos da carruagem, seu ombro bateu nela, que se encolheu toda no canto.
        Os cavalos agora iam bem devagar, e Carmela pensou que devia ser porque o terreno era mais difcil.
        Tinham viajado muito e certamente estavam muito longe da casa. Desesperada, pensou que, mesmo que o conde sasse a sua procura, talvez nunca a encontrasse.
        Os cavalos pararam e o homem a seu lado abriu a porta da carruagem. Pela primeira vez, ouviu a voz dele.
        - No pode chegar mais perto, Arthur?
        No era voz de pessoa bem-educada, mas tambm no chegava a ser grosseira como imaginava.
        - No. Bateramos nas rvores - ouviu outro responder, provavelmente o cocheiro.
        - Est bem. Amarre os cavalos e traga a lanterna.
        A palavra "rvore" indicou a Carmela que deviam estar em um bosque qualquer.
        O homem saiu da carruagem e, passado um pouco, pegou-a no colo.
        Teve novamente vontade de gritar, mas conseguiu se controlar.
        O homem devia ser muito forte, pois no parecia fazer esforo algum para carreg-la.
        Ouvia o barulho de folhas secas, esmagadas debaixo dos ps dele, e percebeu que no seguia por um atalho porque ia ziguezagueando, talvez por entre as rvores.
        Andou um pouco e depois parou.
        - Abra a porta - disse ele.
        - Cuidado com a cabea - avisou o outro.
        Andou mais um pouco, e ento Carmela foi posta no cho duro. Tateando, descobriu que o cho era de terra batida, dura e seca.
        Ouvia os dois homens andando de um lado para o outro e, com medo de que tropeassem em seus ps e machucassem o que estava descalo, encolheu-se toda.
        De repente o pano que a envolvia foi retirado e ela pde ver a sua volta.
        A primeira coisa que percebeu foi o rosto dos dois homens olhando para ela,  luz da lanterna.
        Um era de meia-idade, no o brutamontes que esperava. Tinha at uma expresso inteligente. Obviamente, no se tratava de um campons.
        O outro homem era jovem, magro e plido, com um nariz afilado e usava culos.
        Nenhum dos dois falou. Respirando fundo, Carmela perguntou:
        - Quem... so vocs e por que me trouxeram aqui? Sabia que estava fazendo uma pergunta tola. Por outro lado, ficou contente por sua voz no ter tremido." 
O homem mais velho sorriu, de maneira desagradvel.
        - Vou lhe dizer por que a trouxemos para c, lady Felicity. Queremos dinheiro, e queremos depressa!
        - Duvido que Sua Senhoria, meu tutor, lhes pague. O homem deu uma risada.
        - No espera que a gente v pedir a ele, no ? - Olhou para o homem de culos e disse: - Ande, Arthur, diga o que ela tem que fazer.
        S nesse momento Carmela percebeu que o outro estava junto de uma arca de madeira grande e tosca, tirando alguns papis do bolso, que colocou  luz da lanterna.
        - Tudo que tem que fazer, senhora - falou, em uma voz um pouco esganiada -,  assinar este cheque que j preenchi e tambm uma carta que j est pronta.
        Carmela no disse nada. Passado um pouco, o outro acrescentou:
        - Estamos apenas reclamando nossos direitos e pedindo o que merecemos.
        - O que quer dizer com isso? - perguntou Carmela.
        - O seu tutor, como o chama, depois de muitos anos de trabalho duro, me despediu sem pagar um centavo. E Lane tambm teve o mesmo agradecimento.
        Nesse momento, ela soube quem eram os dois, o administrador e o contador que tinham enfurecido o conde, quando descobrira que roubavam nas contas.
        Teve vontade de lhes dizer que tinham tido muita sorte por no serem presos ou enforcados. Mas seria uma atitude temerria, e nada do que pudesse dizer mudaria 
a inteno deles de lhe extorquir dinheiro.
        Sabia tambm que se lhes contasse que no tinha dinheiro, comeariam a rir e no acreditariam.
        Os dois pareciam esperar que ela falasse alguma coisa.
        - Depois que eu assinar o cheque, como me pediram, o que pretendem fazer comigo?
        A voz tremeu ao pronunciar as ltimas palavras e ela levantou o queixo, orgulhosa, para disfarar.
        Matthews voltou a sorrir de modo desagradvel.
        - Espero que, mais cedo ou mais tarde, venha a ser encontrada. Se sentir fome enquanto espera, vai se lembrar sempre de que era o que o seu amvel tutor 
queria que nos acontecesse.
        - J pensou que, se forem apanhados, tero que responder tambm por seqestro e chantagem e que as penas sero muito severas?
        - No seremos apanhados - respondeu Matthews. - Vamos para o estrangeiro, no vamos, Arthur? Mas voc pode pedir a Sua Senhoria para ser generoso e cuidar 
de nossas famlias. - Sorriu maliciosamente e acrescentou: - No lugar onde vamos h muitas mulheres!
        - Voc est falando demais - disse Lane. - Vamos fazer o que temos a fazer.
        Carmela teve certeza de que Matthews havia bebido, talvez para ganhar coragem. Quando aproximou-se para ajud-la a levantar-se, sentiu o cheiro de lcool.
        Puxou o brao para se livrar do contato repugnante da mo dele e tentou andar com dignidade at a arca.
        Atrs da arca, havia um bloco de madeira para ser usado como banco. Carmela sentou-se, e Lane tirou um tinteiro e duas canetas de uma sacola de couro. Colocou-os 
na frente dela e ento leu a carta, redigida em uma caligrafia bem cuidada.
        
        "Prezados senhores Coutt:
        Junto incluo o cheque no valor de dez mil libras, que agradeo mandar pagar a E. J. Matthews.
        Atenciosamente,"
        
        Carmela olhou o cabealho do papel e viu o braso do conde em cima das palavras "Galeston Park". Lane devia ter roubado o papel antes de sair.
        Os dois homens olhavam para ela quando colocou a carta em cima da arca, dizendo:
        - Pensam que o banco vai lhes entregar uma quantia to grande sem fazer perguntas?
        - Por que no? - perguntou Lane. Sua vida vale muito mais, senhora, mas estamos sendo razoveis e pedindo um montante que no levantar suspeitas.
        - Por mim - disse Matthews -, pediria muito mais. Pea vinte mil libras, Arthur. Podemos nos arrumar muito melhor com mais dinheiro.
        O outro sacudiu a cabea.
        - No! Eles vo estranhar que uma jovem queira tanto dinheiro em notas. J vo estranhar, de qualquer maneira.
        - Voc garantiu que estaramos seguros pedindo dez mil! - protestou Matthews, agressivo.
        - Nada  seguro. Mas acho que, sabendo como Sua Senhoria  rica, eles vo pensar que quer comprar cavalos ou jias e no vo questionar a carta e o cheque.
        - Se estiver enganado, eu o mato! Bem, acabe logo com isso!
        Lane olhou para Carmela e apontou para o papel.
        - Assine aqui, senhora.
        Ela estava na dvida se deveria assinar tentando imitar a letra de Felicity ou com sua prpria letra, para que o banco ficasse imediatamente de sobreaviso 
e se recusasse a entregar o dinheiro.
        Por um momento, achou que era uma idia brilhante e que eles teriam o castigo que mereciam.
        Depois, pensou que, ao primeiro sinal de hesitao por parte do banco, os dois fugiriam e talvez os senhores Coutt levassem algum tempo para entrar em contato 
com ela, contando o que tinha acontecido.
        Durante esse tempo, estaria ali no bosque, dentro do que achava ser uma cabana de lenhadores.
        Se o conde no a encontrasse logo, ficaria prisioneira por dias ou semanas, sem nenhuma chance de fugir.
        Achou que a nica chance de ficar em liberdade seria negociar com os seqestradores.
        Sem pegar a caneta, disse:
        - Se eu assinar tudo e vocs receberem o dinheiro, voltaro para me libertar?
        Matthews hesitou e ela percebeu que, por ele, ela poderia apodrecer ali. Mas, com um olhar falso, respondeu:
        -  claro, senhora! Seria o mnimo que poderamos fazer!
        Estava mentindo. Carmela sabia que no tinha a menor inteno de voltar para solt-la. No momento que conseguisse o dinheiro, ele e Lane fugiriam para o 
estrangeiro.
        Decidiu ento assinar o nome de Felicity com a prpria letra..
        - No tente nos enganar; seno, vai se arrepender! - avisou Lane, como se lesse seus pensamentos.
        - O que quer dizer com isso? - perguntou Matthews. -- O que pensa que ela pode fazer?
        - Pode assinar de um jeito que o banco no pague o cheque. E tenho a impresso de que  o que est pensando em fazer.
        Matthews urrou como um animal selvagem.
        - No se atreva! Se fizer isso, eu a mato! J aturei muita coisa do conde, no vou aturar voc tambm!
        Carmela sentiu o corao se apertar de medo, e disse, com voz trmula.
        - Vou assinar... como vocs desejam.
        -  melhor, mesmo! - Matthews voltou a ameaar. - Sabe como  a assinatura dela? - perguntou para Lane.
        - Como  que vou saber?
        - Ento, temos que confiar nela.
        - No temos outra sada. E voc prometeu que, assim que recebermos o dinheiro, voltaremos para libert-la.
        Pelo tom, Carmela notou que tentava avisar Matthews de que esse era o nico argumento que tinham para que ela assinasse corretamente. Mas o outro, estpido 
ou bbado, no entendeu.
        - No vou voltar para esta porc...
        Lane fez um sinal por trs das costas dela, e finalmente Matthews percebeu, pois no terminou a frase.
        - Tudo bem, seja como voc quer. Ns voltaremos. 
        Carmela sabia que aquilo tudo era fingimento. Mas tinha tanto medo de que lhe fizessem mal, que resolveu aceitar o jogo.
        Sem dizer mais nada, pegou a caneta e, bem devagar, assinou a carta, imitando a letra de Felicity.
        Depois, Lane lhe deu o cheque.
        Era de outro banco, mas ele havia apagado o nome cuidadosamente e escrito em cima: "Coutts & Cia."
        Ao ver aquele montante, imaginou como dez mil libras teriam sido importantes para seus pais. Embora para ela fosse muito dinheiro, a fortuna de Felicity 
era to grande que, se aqueles dois conseguissem receber o dinheiro, o prejuzo no seria muito grande.
        Voltou a assinar o nome da amiga, consciente de que Matthews e Lane observavam cada movimento que fazia. Assim que Lane pegou o cheque, o outro disse:
        - Agora vamos ver se esses cavalos que alugamos nos levam depressa para Londres.
        - Temos que estar l antes que os bancos abram. Lane colocou o cheque e a carta no bolso e guardou o tinteiro e as canetas na bolsa novamente.
        - Espero que fique confortvel, senhora - falou Matthews, irnico. - Enquanto estiver aqui, medite no velho ditado: "Ri melhor quem ri por ltimo".
        Dirigiu-se para a porta seguido por Lane, que segurava a lanterna.
        - Por favor, no me deixem no escuro! - gritou Carmela.
        A nica resposta que recebeu foi o barulho da porta sendo trancada. Estava prisioneira ali. A porta s se abria pelo lado de fora.
        A escurido era completa. No havia janelas na cabana; seno, teria visto a luz da lanterna quando eles saram.
        Apertou as mos. Quanto tempo demoraria, at ser encontrada?
        Tremia de frio e de medo, e o p descalo comeava a ficar dormente.
        "Preciso ter calma e esperar que amanhea. Ento, pode ser que tenha alguma idia para fugir daqui."
        No ntimo, tinha muito pouca esperana. Conhecia as cabanas que os lenhadores construam para guardar as ferramentas e onde se abrigavam quando chovia muito. 
Normalmente, eram feitas de troncos cortados ao meio e bem fincados no cho. O telhado, do mesmo material, recebia um tratamento que o tornava impermevel.
        Como as ferramentas custavam caro, nenhum lenhador se aventurava a ficar sem sua enxada ou serra; por isso as cabanas eram slidas, para que os ladres no 
pudessem entrar.
        "Talvez nunca me encontrem. Vou morrer de fome, e s acharo meu esqueleto."
        Reagindo, tentou convencer-se de que no adiantava pensar de maneira negativa.
        Devia acreditar que Deus cuidaria dela e ouviria suas preces.
        Apavorada como estava, o melhor que tinha a fazer era sentar-se no cho com as costas apoiadas na parede; talvez at conseguisse dormir um pouco.
        Foi para um canto e cobriu-se o melhor que pde Com o roupo. Tinha que agradecer a Suzy por lhe dar uma roupa quente. Ao pensar nisso, lembrou-se de que 
a empregada devia ser cmplice de Matthews e Lane.
        "Como o conde vai ficar decepcionado, ao descobrir que foi trado por mais um empregado!"
        Sentiu pena dele, mas depois lembrou-se de que ela mesma estava mentindo e ia desiludi-lo.
        Sim, tinha certeza de que, quando soubesse de seu desaparecimento, ele faria tudo para traz-la de volta.
        Mas s na manh seguinte  que deveria ficar sabendo, quando ela no aparecesse para tomar caf s oito horas, como combinaram.
        No ia pensar que tinha fugido, j que todas as roupas estavam no quarto. S faltava o roupo. A velha empregada perceberia isso.
        "Ele vai me encontrar, sei que vai!"
        Tambm sabia que ia demorar, mas a certeza de ser salva foi como uma luz nas trevas.
        Recostou-se na parede e ficou escutando. Naquele silncio, podia ouvir todos os rudos do bosque! O latido de uma raposa, o pio das corujas e, embora no 
tivesse certeza, o barulho de pequenas patas.
        Como era l fora, no teve medo.
        O bosque tinha feito sempre parte das histrias de fadas que o pai lhe contava quando criana.
        Agora, s desejava que os duendes que saltitavam entre as rvores pudessem entrar para ajud-la. Ou que os passarinhos levassem uma mensagem ao conde, acordando-o 
e cantando-lhe o perigo que ela estava correndo.
        Como no podia mandar um pssaro, tentou se concentrar. Talvez seus pensamentos chegassem  manso.
        "Ajude-me! Ajude-me!"
        Mas por mais sensvel que o conde fosse, entre os dois no havia uma ligao to ntima que lhe permitisse uma percepo do perigo que ela corria.
        Lembrou-se ento da maneira como ele beijara sua mo ao se despedirem. Ainda conseguia sentir o calor de seus lbios.
        "Ajude-me! Ajude-me!"
        Sentiu que aquela mensagem voava da priso em que se encontrava at a nica pessoa que podia salv-la.
        Todo o seu ser chamava por ele e, subitamente, Carmela compreendeu que o amava.
        O conde acordou com uma sensao de alegria pelo dia que tinha  frente.
        Lembrou-se dos planos da expedio a cavalo com Felicity, s esse pensamento j o deixava feliz. Alm disso, conheceriam mais uma parte da propriedade.
        Espreguiando-se, de repente lembrou-se de que tinha acordado durante a noite, sentindo que qualquer coisa o perturbava, embora no conseguisse entender 
por qu.
        Ficara acordado durante algum tempo, pensando em como Felicity era bonita e inteligente.
        "Ela nunca me cansa, mas uma mulher inteligente  perda de tempo."
        Quando tivesse um filho, queria que fosse inteligente e um atleta, mas nunca lhe passara pela cabea que as filhas tambm devessem ser inteligentes.
        Agora achava que, embora fosse um precedente perigoso uma mulher saber usar a cabea, no havia dvida de que era muito mais interessante para o marido.
        "O prncipe no vai se aborrecer depressa de Felicity."
        Ficou imaginando se ele seria to inteligente quanto ela.
        "Acho que o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde,  Felicity governar Horngelstein e Frederich no poder fazer nada para impedir."
        No gostaria de ter uma mulher que mandasse nele por ser mais inteligente; por outro lado, quando procurasse uma esposa, ia preferir uma esperta em vez de 
uma bela idiota qualquer.
        Lembrou-se de todas as mulheres com quem tinha tido romances curtos e tempestuosos, e no conseguiu se recordar de nenhuma que tivesse conversado com ele 
sobre assuntos to srios, nem que estimulasse sua inteligncia como Felicity.
        Tinha certeza de que hoje, quando parassem para almoar, ela o divertiria tentando provoc-lo.
        Adorava quando olhava para ele de lado, como uma criana. Havia uma brejeirice naquele olhar que comeava a enfeiti-lo.
        "Diabos! Ela  boa demais para o jovem Frederich! Ele s vai gostar dela porque tem uma carinha bonita e no saber apreciar toda a sua inteligncia."
        Quando pensava em Felicity, parecia que estava viva em sua mente; to viva como se estivesse ali, falando com ele.
        Virou-se para o lado e fez um esforo para pensar em outra coisa e adormecer de novo.
        O empregado do conde entrou devagar no quarto para colocar a bandeja com ch e torradas ao lado da cama. Depois, abriu as cortinas.
        - Que dia lindo, Jarvis! - comentou Selwyn.
        - Sim, senhor. Desculpe-me, senhor, mas a sra. Humphries est preocupada.
        - Preocupada? O que ela tem para estar assim?
        - No consegue encontrar Sua Senhoria, senhor!
        O conde olhou para ele, intrigado.
        - O que quer dizer com "no consegue encontrar Sua Senhoria"?
        - Bem, senhor, ela no est no quarto. Pediu para ser acordada cedo, para sair a cavalo com o senhor, mas parece que no est em parte alguma.
        - Deve ter levantado mais cedo e ido at aos estbulos.
        - No, senhor. Sua Senhoria no est vestida para sair. A nica coisa que falta no guarda-roupa  um roupo grosso.
        - Isso est parecendo um mistrio - comentou o conde, bem-humorado:-, mas deve haver uma explicao bem simples.
        Pensava que talvez Felicity tivesse ido at o telhado para ver o alvorecer. Ou  biblioteca, escolher algum livro. Sempre tinha achado que a sra. Humphries 
estivesse caducando, e essa era a prova.
        Bateram  porta e Jarvis foi abrir. Falou com algum e logo a seguir voltou.
        - O que ? - perguntou Selwyn, bebendo o ch.
        - A sra. Humphries pede para dizer que uma das empregadas encontrou isto l fora, perto da porta dos fundos. - Mostrou um chinelo de cetim lils.
        - Voc diz que encontraram o chinelo perto da porta de trs?
        - Sim, senhor. E o sr. Newman disse que h sinais de rodas de uma carruagem que ele jura que no havia ontem, quando passou por l. O conde pousou a xcara 
e deu um salto da cama. Vestiu-se correndo e foi at ao quarto de Carmela. Como esperava, encontrou a sra. Humphries nervosa, de mos apertadas.
        - Ainda bem que o senhor veio, ainda bem! Sua Senhoria nunca teve nenhum comportamento estranho desde que chegou aqui e j mandei as empregadas procurarem 
em toda a casa. No h um s lugar que no tenha sido revistado.
        - No posso entender!
        - E Suzy tambm desapareceu. Acho que no deve estar com Sua Senhoria, e eu tambm j estava mesmo pensando em mand-la embora.
        - Suzy?
        - Suzy Lane, senhor. O conde ficou tenso.
        - Voc disse Suzy Lane?
        - Sim, senhor.
        - Ela tem algum parentesco com Arthur Lane, o contador?
        -  sobrinha. Ele me pediu para empreg-la. Embora no fosse eficiente, fui deixando que ficasse para no criar problemas.
        - E voc diz que ela desapareceu?
        - Bem, Emily, que dorme no mesmo quarto, disse que ela deve deve ter sado ontem  noite. Esta manh, quando Emily acordou, no a encontrou.
        O conde no esperou ouvir mais nada. Correu para baixo e foi verificar as marcas das rodas que Newman continuava a afirmar que no estavam l na vspera.
        - Tem certeza absoluta disso, Newman?
        - Tenho, senhor. Se observar bem, perceber que o veculo era puxado por dois cavalos.
        Mostraram ao conde onde o chinelo de Carmela tinha sido encontrado, e ele mandou chamar todos os empregados. Vinte minutos depois, a criadagem estava em 
frente da porta.
        Disse-lhes que lady Felicity tinha desaparecido e que queria que procurassem por toda a propriedade, vasculhando todos os lugares onde ela pudesse estar.
        - O senhor acha que Sua Senhoria foi seqestrada? - perguntou o copeiro.
        -  uma possibilidade.
        Pensava em como os Gale haviam falado abertamente sobre a fortuna de Felicity e, tal como Carmela, tinha certeza que todo mundo sabia. A notcia devia ter 
corrido rapidamente por todos os lados.
        "Maldito dinheiro! A nica coisa que importa  que Felicity esteja bem."
        Assim que acabou de dar as instrues aos homens, montou e partiu tambm  procura dela.
        Sentia uma aflio totalmente diferente de tudo quanto havia sentido antes. Estava apavorado com a idia de que algum a tivesse ferido, drogado ou feito 
algum mal.
        Mesmo que no a ferissem fisicamente, sabendo como ela era sensvel tinha certeza de que estaria traumatizada.
        "Tenho que encontr-la, e depressa!"

CAPTULO VII


        O conde afrouxou as rdeas. Estava cheio de calor e o cavalo suava.
        Chegara a uma das extremidades da propriedade, pensando desesperado que, se Lane e Matthews tivessem levado Felicity para outro condado, seria muito difcil 
encontr-la. Havia mais de quatro horas que a procurava, tomando conscincia de que seus sentimentos por ela eram muito fortes, que significava para ele mais do 
que qualquer pessoa.
        Sentia uma vontade incontrolvel de matar os homens que a seqestraram e achava que tinha sido um tolo no os obrigando a pagar pelos crimes que cometeram, 
assim que descobrira o que haviam feito.
        Olhando a sua volta viu que estava em uma clareira, no meio de um bosque onde as rvores haviam sido cortadas.
        Lembrou-se de repente que aquilo devia ter qualquer relao com a venda de madeira que Matthews fizera em proveito prprio. Quem sabe se, em uma tentativa 
de vingana qualquer, ele teria levado Felicity para ali, pensando que seria o ltimo lugar onde a procurariam?
        Vendo umas marcas por entre as rvores, seguiu-as. No estava otimista, mas era sua ltima esperana.
        Poucos minutos depois, viu a sua frente uma cabana de madeira construda por lenhadores.
        Carmela percebeu quando amanheceu, porque uma luz tnue entrava pelas junes dos troncos.
        Estava gelada e com mais medo do que nunca.
        Sabia que as chances de ser encontrada eram muito pequenas. O bosque devia ser uma parte da propriedade onde ningum costumava ir, e precisava encarar o 
fato de que poderia ficar ali muito tempo.
        Pensou ouvir um barulho diferente e correu para a porta, gritando com todas as foras:
        - Socorro! Socorro!
        Logo percebeu que devia ser algum animal, talvez uma cora.
        Envergonhada pelo pnico com que havia gritado, voltou a sentar-se no mesmo canto onde passara a noite, tentando acalmar-se.
        "Estou com medo! Estou apavorada!"
        A luz que entrava foi aumentando, mas as horas passavam e nada acontecia.
        Como no tinha conseguido dormir durante a noite, comeou a cochilar de cansao.
        Inesperadamente, ouviu que levantavam a tranca da porta.
        Ficou de p, com receio de que Matthews e Lane tivessem voltado para lhe fazer algum mal.
        A porta se abriu e, cega pela claridade, viu o vulto de um homem alto e elegante. Deu um grito de alegria, que pareceu encher a cabana de msica.
        O conde aproximou-se, abraando-a.
        Carmela se aninhou contra ele, falando incoerentemente.
        - Voc... me encontrou! Voc... me encontrou! Rezei tanto... para voc vir! Tive tanto medo de morrer... antes de voc me encontrar!
        - Mas eu a encontrei - disse ele, em um tom estranho.
        Lgrimas de alvio corriam pelo rosto de Carmela. Abaixando a cabea, o conde procurou seus lbios.
        Por instantes, ficou to aturdida que no conseguiu pensar em mais nada, a no ser que ele estava ali.
        Depois, sentindo a presso dos lbios dele, teve a impresso de que tudo desaparecia a sua volta. Estava salva, o conde a abraava e ela o amava.
        O beijo foi se tornando mais insistente, e Carmela teve a sensao de estar voando no cu. O medo e o susto tinham desaparecido; s havia ele, seus braos 
e a presso de seus lbios. Era como se raios de sol penetrassem em seu corpo, incendiando-lhe os seios, a garganta, os lbios. A glria daquele momento e o amor 
encheram seu corao.
        O conde estreitou-a mais ainda, beijando-lhe as lgrimas que corriam no rosto, os olhos, a testa e os lbios novamente, despertando em Carmela sensaes 
at ento desconhecidas.
        S quando sentiu que tinham atingido um xtase intenso e maravilhoso a moa escondeu o rosto no peito do conde, mas continuou agarrada a ele, como se tivesse 
medo de que desaparecesse e a deixasse sozinha de novo.
        - Como pude perder voc? - perguntou Selwyn, com a voz rouca e excitada.
        - Eu... eu tive medo de que voc nunca mais... me encontrasse.
        - Mas encontrei! E nunca mais vou deixar que lhe acontea algo de mau! - Segurando-lhe o queixo, levantou o rosto de Carmela. - Fiquei aflito, desesperado! 
- disse, como se falasse para si mesmo.
        Antes que ela pudesse responder, voltou a beij-la sem parar, fazendo com que Carmela sentisse que os dois eram uma s pessoa.
        Finalmente, ele falou:
        - Tenho que levar voc para casa.
        - Eu amo voc! Tentei cham-lo durante a noite e dizer onde estava, mas tive medo de que no me ouvisse.
        - Eu estava acordado, pensando em voc. Embora tenha levado um certo tempo para entender a mensagem agora estou aqui, e isto  o que interessa.
        Percebendo que tinha dito que o amava, que ele a beijara e que nada disso poderia ter acontecido, Carmela afastou-se.
        - Voc disse que me ama, minha querida, e eu sabia quando a procurava que tambm a amo e que no posso viver sem voc.
        Carmela olhou para ele, espantada, e Selwyn continuou:
        - Ns podemos ser primos diretos, mas isto  irrelevante; voc  minha e nunca mais a deixarei.
        Foi nesse momento que ela soube que precisava lhe contar a verdade. Mas no tinha foras.
        Sentindo-se fraca, apoiou a cabea no ombro dele, tentando desesperadamente encontrar uma maneira para lhe confessar que tinha mentido o tempo todo.
        Mas nada mais parecia importar, a no ser que estavam juntos e que ele havia dito que a amava.
        O conde pegou-a no colo.
        - Quando voc desapareceu, tal como a Cinderela, deixou para trs um dos seus chinelos. Foi ento que percebi que alguma coisa terrvel devia ter acontecido.
        - Mas voc no sabia quem tinha me levado?
        - Quando soube que a sobrinha de Lane tambm havia desaparecido, compreendi tudo. Mas falaremos nisso depois. Voc j sofreu bastante; agora tem que ir para 
casa.
        Colocou-a no cavalo e desamarrou as rdeas, que estavam presas no tronco.
        Montou atrs de Carmela, segurando-a bem junto a si, e voltaram pela clareira.
        Carmela fechou os olhos.
        Naquele momento, s queria pensar que estava salva e junto do conde. Mais tarde lhe contaria toda a verdade, quando se sentisse mais forte.
        Assim que chegaram perto de casa, ele perguntou:
        - Matthews e Lane disseram o que iam fazer com voc? Pretendiam pedir algum resgate?
        - No. Eles me fizeram assinar um cheque de dez mil libras e uma carta para o Banco Coutts, autorizando o desconto do cheque.
        - Dez mil libras!
        - Disseram que assim que tivessem o dinheiro iriam embora do pas.
        - Eu os levaria a julgamento se achasse que valia a pena, mas so do tipo de criminosos que vo se enforcar mais cedo ou mais tarde. Alm disso, eu pagaria 
milhares de vezes mais para ter voc s e salva.
        Apertou-a mais contra si e Carmela olhou para ele, sabendo que queria beij-la de novo, mas agora j estavam  vista da casa.
        S ao ser levada para cima, com as empregadas todas  volta, fazendo a maior confuso, satisfeitas por v-la salva,  que Carmela se viu defrontada de novo 
com suas mentiras.
        A qualquer momento teria que explicar tudo ao conde. Estremeceu, s em pensar na raiva que ele sentiria.
        Selwyn percebeu.
        - Voc est com frio?
        - No... no! S feliz por estar de volta - apressou se a responder.
        - Tambm estou muito feliz por t-la comigo. Levou-a at o quarto e deitou-a na cama.
        - Ajude Sua Senhoria a se deitar - disse para a sra. Humphries, que andava ali  volta, como uma galinha agitada. - E d-lhe alguma coisa para comer, antes 
de ela dormir um pouco.
        - Sim, senhor, certamente senhor. Estou to feliz porque Sua Senhoria voltou s e salva!
        O conde olhou para Carmela, recostada nos travesseiros, e ela notou uma expresso em seu rosto que nunca tinha visto.
        - Conversaremos mais tarde - disse ele, suavemente. Quando afastou-se, a moa teve vontade de agarrar-se a ele, impedindo-o de sair.
        Carmela dormiu, comeu e adormeceu outra vez. Mas depois do lanche, insistiu em se arrumar para o jantar.
        - Sua Senhoria disse que no precisava descer, a no ser que se sentisse bem - avisou a sra. Humphries.
        - Estou perfeitamente bem.
        Ainda se sentia um pouco cansada, mas no conseguia ficar mais tempo longe do conde. Queria conversar e ser beijada novamente.
        Cada vez que se lembrava de seus beijos estremecia toda, sabendo que tinha deixado de se pertencer; agora, seu corao, sua alma e seu corpo pertenciam a 
ele.
        Mais uma vez, como um relmpago, veio a lembrana da mentira. Quando soubesse a verdade, nunca a perdoaria por fingir que era Felicity!
        Talvez ficasse to zangado que seu amor por ela morreria e nunca mais sentiria a felicidade de estar nos braos dele.
        Apavorada com essa idia, passou o tempo todo rezando, enquanto se vestia para o jantar. No contaria a verdade, ainda.
        Felicity no estava casada e ela precisava continuar fingindo, at que no fosse mais necessrio. Apesar de amar o conde, era leal  amiga e tinha que manter 
a promessa at a mulher de Jimmy morrer.
        Dividida entre contar a verdade ao homem que amava e aproveitar vivendo com ele aqueles momentos maravilhosos, no sabia o que fazer.
        Se na hora que soubesse da verdade ele a mandasse embora com raiva, nunca mais seria feliz.
        "Eu o amo! Eu o amo! Eu o amo!", repetia para si, a cada degrau que descia para ir ao salo. Quando entrou e o viu em p, junto  lareira, parou, pensando 
em como estava elegante e bonito. Sorria para ela, e assim que seus olhares se encontraram o conde abriu os braos. Carmela correu para ele, feliz.
        Abraou-a, beijando-a cada vez mais apaixonadamente, como se h muito tempo esperasse por aquele momento.
        - Amo voc! - disse, com sua voz profunda. - Agora, repita o que me disse esta manh.
        - Eu amo voc! No consegui... evitar.
        - No tenho vontade nenhuma de que tente evitar. Comeou a beij-la novamente.
        S quando o mordomo entrou, anunciando que o jantar estava servido, os dois se separaram.
        O conde deu-lhe o brao, sentindo-a estremecer quando se tocaram.
        Sorriu para Carmela, e no houve necessidade de mais palavras. Um sabia o que o outro estava sentindo.
        Durante o jantar, diziam uma coisa e os olhos dos dois falavam uma outra linguagem. Carmela sentia-se envolvida por uma luz celestial.
        Assim que acabaram de comer e voltaram para o salo, o conde falou, sentando-se no sof:
        - Agora temos que fazer planos, minha querida.
        Ia comear a dizer que era melhor conversarem no dia seguinte, depois que toda a agitao das ltimas horas tivesse passado, quando a porta se abriu e Newman 
entrou com uma salva na mo.
        - O que significa isto, Newman? - perguntou o conde, em um tom que mostrava que no queria ser interrompido.
        - Os cavalos acabaram de chegar de Dover, senhor, e o cocheiro trouxe esta carta de Sua Alteza Real. Ele a escreveu assim que chegou ao iate.
        Selwyn pegou a carta e, assim que o mordomo saiu, abriu o envelope dizendo:
        - Lamento, mas o nosso amigo monarca vai ter que procurar outra esposa. Tenho certeza de que ns dois vamos lhe arranjar uma.
        Passado um pouco Carmela falou, hesitante:
        - Eu... eu no creio que o prncipe se importe muito de me perder.
        Percebeu que o conde no tinha ouvido, absorto em ler a carta.
        Ele continuava calado e, nervosa, Carmela perguntou:
        - O que foi? O que Sua Alteza escreveu?
        -  extraordinrio! Nem consigo acreditar que tudo isso no passa de um sonho.
        - O qu?
        O conde voltou a olhar para a carta que tinha na mo, antes de responder:
        - O prncipe Frederich escreveu assim que entrou a bordo. Agradece a minha hospitalidade e diz que est muito grato por ter lhe emprestado a carruagem e 
o iate. Manda-lhe os maiores cumprimentos.
        Carmela ouvia, intrigada porque no conseguia entender o que o conde estava achando estranho. Ele continuou:
        - Aqui h uma observao, que diz: "Assim que cheguei ao cais, encontrei um dos membros da minha embaixada em Londres. Tinha acabado de chegar de Paris e 
entregou-me um jornal comprado de manh. Tenho certeza de que o recorte que lhe mando vai surpreend-lo tanto quanto a mim!"
        - Um recorte?
        O conde limitou-se a lhe dar um pedao do jornal, que ela sabia o que continha, mesmo antes de o ler.
        As letras pareciam danar diante de seus olhos.
        "Lorde Salwick, nobre ingls, casou-se ontem na igreja da embaixada britnica, na rua Faubourg St. Honor, com lady Felicity Gale, filha do conde de Galeston. 
O feliz casal vai passar a lua-de-mel no Hotel de Fontainebleau, nos Campos Elseos." Carmela leu tudo at o fim, com as mos tremendo.
        Depois, sem olhar para o conde, disse assustada, em um fio de voz:
        - Perdoe-me... por favor, perdoe-me. Eu ia contar tudo, assim que fosse seguro.
        - Quer dizer que o que est escrito neste jornal  verdade? - perguntou, incrdulo. Carmela no respondeu.
        - Se no  minha prima Felicity, ento quem  voc?
        - Eu... eu sou a melhor amiga dela, Carmela Lyndon. 
        O conde recostou-se na lareira, e Carmela teve a sensao de que ele ia desabar sobre ela.
        - Eu lamento, muito. Mas Felicity estava apaixonada por lorde Salwick h muitos anos.
        - Ento, por que no se casou com ele antes?
        - Porque ele j era casado. No entanto, a esposa estava morrendo.
        Mesmo sem olhar para ele, Carmela sentiu que os lbios do conde se apertaram.
        - Eu... eu concordei em vir para c por que era a nica maneira de Felicity poder ser feliz com lorde Salwick. E ela no queria que ele soubesse da fortuna 
que tinha herdado.
        - Por que no?
        A pergunta do conde foi seca. Desesperada, Carmela percebeu que estava furioso. Agora talvez o tivesse perdido, como poderia ter acontecido com Jimmy e Felicity.
        - Felicity sabia que ele era muito orgulhoso e que no ia querer casar com uma mulher to rica.
        - Ento, ela mentiu ao futuro marido, como voc mentiu para mim?
        - Eu... eu sei que parece horrvel e reprovvel, mas foram... mentiras por amor. - Respirou fundo, antes de continuar: - Sei que voc acha que mentir  sempre 
errado e no tenho desculpa, mas s vezes  preciso, quando se mente para salvar algum ou para evitar perder a pessoa amada.
        Falava em desespero, lutando por tudo que era mais importante para ela.
        Subitamente, sem querer, as lgrimas comearam a rolar por seu rosto. Apertando as mos, disse:
        - Por favor, voc pode no acreditar, mas eu o amo de todo o corao... com toda a minha alma. Se me mandar embora no vou amar mais ningum, por mais anos 
que viva.
        Os olhos dele estavam fixos em seu rosto, como se tentasse penetrar na alma de Carmela.
        Ento, quando ela achava que j no havia mais esperana e que seria expulsa dali, o conde sorriu.
        Aquele sorriso pareceu iluminar todo o salo.
        - Ento, voc me ama mesmo!  como eu a amo, o que vamos fazer, Carmela?
        Ouvir seu nome pronunciado por ele foi o som mais lindo de toda a vida!
        Em um impulso levantou-se e foi para junto de Selwyn, sem toc-lo, apenas olhando, com medo de ter ouvido mal.
        - Amo voc! E como no  minha prima, nem est sob a minha tutela, tudo fica mais fcil.
        - Est sendo mesmo... sincero?
        - Estou, sim.
        Puxou-a com fora e beijou-a at que o mundo girou  volta deles, dando a Carmela a sensao de que seus ps no tocavam mais o cho.
        Ele levou-a ao cu, colocando a lua em seus braos e um colar de estrelas em seu pescoo.
        S quando ela sentiu que faziam parte do prprio Deus, o conde, apertando-a muito contra o peito, perguntou:
        - Faz alguma idia, minha maluca querida de como  que vamos sair desta confuso toda sem um escndalo?
        Olhou para ele, apreensiva, e Selwyn explicou:
        - Voc ficou aqui sem dama de companhia, e os parentes que conheceu vo achar muito estranho que se case com outro nome.
        - Talvez seja melhor eu ir embora.
        O conde comeou a rir, apertando-a novamente.
        - E acha que eu deixaria? No vai me escapar, meu amor, e nunca mais mentir para mim. Pode ter certeza disso!
        - No tenho vontade nenhuma de mentir para voc. Como poderia mentir, se o amo tanto?
        - No lhe darei nenhuma oportunidade. Por outro lado, acho que ns dois teremos que contar algumas "mentiras por amor", como voc diz.
        Encostou os lbios na testa dela, e Carmela soube o que ele estava pensando.
        - Voc se parece muito com Felicity?
        - Somos muito parecidas, sim; mas  claro que para isso tive que mudar o penteado e tambm usar as roupas dela. - Um pensamento veio-lhe  mente e disse, 
rapidamente:- Ainda no lhe contei, mas no tenho dinheiro. Meus pais morreram e eu estava trabalhando na casa do vigrio da aldeia, tomando conta das crianas.
        A voz dela soou preocupada e com medo, mas o conde limitou-se a pressionar ainda mais os lbios contra sua testa, dizendo lhe depois:
        - Vai ter muito trabalho futuramente, minha adorada, tomando conta das nossas crianas. E tenho dinheiro suficiente para os dois. No precisaria do seu nem 
do de Felicity.
        Carmela deu um suspiro de alvio, e ele continuou:
        - Tenho um plano, que precisamos pr em prtica imediatamente.
        - Qual ?
        - Vamos partir para Paris logo de manh cedo. Procuraremos Felicity e o marido e faremos com que a notcia do casamento deles e do nosso saiam nos jornais 
ingleses tambm.
        Carmela no estava entendendo.
        - Voc me disse que fez o possvel para ficar igual  Felicity. Agora, quero que seja voc mesma.
        - Acha que, quando voltarmos, os Gale vo pensar que sou outra pessoa? E que foi Felicity que conheceram aqui?
        - Acho que sim. As pessoas vem o que querem ver. Quando voc voltar vestida na moda de Paris, minha adorada, acho que conseguiremos engan-los com umas 
"mentiras por amor!"
        - Voc  to inteligente! Tenho certeza de que, quando virem Felicity, vo acreditar piamente que foi ela quem conheceram.
        - Seno, ns damos um jeito de convenc-los. Mas o mais importante de tudo  que quero que seja minha mulher.
        Sua maneira de falar fez com que Carmela corasse, escondendo o rosto no ombro dele.
        - Desejo voc! - disse o conde. - E sinto que venci uma grande batalha para conquist-la.
        - Mas agora, voc ganhou!
        Selwyn viu o amor nos olhos dela, o rubor de suas faces e os lbios tremendo por todas as emoes que tinha passado.
        - Adoro o seu rosto, sua cabecinha inteligente, seu corpo gracioso, mas principalmente o amor que sente por mim.
        -  tudo seu. E tudo que tenho dentro de mim. Diga que me perdoa, porque quero que confie em mim e saiba que nunca mais vou lhe mentir.
        - Sei disso e confio em voc, minha adorada. No s porque voc transborda honestidade, mas principalmente porque lhe entreguei meu corao, que nunca dei 
a ningum.
        -  o presente mais precioso e mais maravilhoso do mundo, vou guard-lo para sempre!
        O conde sorriu, ao notar a imensa felicidade na voz dela. Estreitando-a mais ainda nos braos, beijou-a sem parar. Carmela sentia que tudo quanto ele tinha 
dito era verdade; que lhe havia dado o corao, tal como ela lhe entregara o seu.
        Acontecesse o que acontecesse no futuro, nunca se separariam, porque aquele amor era verdadeiro e duraria at a eternidade.


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